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Fernando Costa é sociólogo e publicitário

Quem cala consente

Tipo Opinião
Fernando Costa 
Sociólogo e publicitário
 (Foto: Acervo pessoal)
Foto: Acervo pessoal Fernando Costa Sociólogo e publicitário

Nascido no final dos anos 50 do século passado, trago em mim uma carga de preconceitos com os quais vivo em constante conflito. Já derrotei alguns, outros, varro constantemente para baixo do tapete do meu comportamento cotidiano e, como me ensinou minha mãe, "se você não é educado, finja que é que um dia você acabará sendo."

Confesso que tenho preconceito com o tal "lugar de fala", acho que todos, todas e todes têm o direito de opinar e falar sobre tudo.

Calar sobre assassinatos e agressões sofridas por grupos chamados, ou tidos, como minoritários, étnicos e sobre todo e qualquer tipo de preconceito sofrido por qualquer pessoa, me lembra o famoso texto de Martin Niemöller, erroneamente atribuído a Bertold Brecht: "Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar."

Eu sei que você tem uma tonelada de argumentos para sustentar a tese do lugar de fala, mas eu não posso me calar diante do absurdo veto imposto por Bolsonaro a milhões de mulheres brasileiras, pobres e miseráveis, expostas a infecções por não terem condição de comprarem absorventes quando menstruam.

Em pesquisa realizada pela marca Sempre Livre, no Brasil, constatou que da totalidade de entrevistadas 39% afirmaram pedir um absorvente emprestado como se fosse um segredo e tentam esconder de alguma forma que estão menstruadas. 66% param de praticar esportes, apenas 22% não têm medo de levantar durante a aula no período menstrual e somente 24% não acham a menstruação nojenta. Diante dessa realidade, o governo federal simplesmente vetou o projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional que determinava a distribuição gratuita de absorventes higiênicos. Bolsonaro sendo mais uma vez Bolsonaro.

Mas onde estávamos nós nos últimos 20 anos que nunca paramos para pensar sobre a miséria menstrual?

Só quem menstrua sabe o que é não ter um absorvente ou outro tipo de coletor menstrual. Diante desse fato, me calo e espero que as mulheres que menstruam e as que não, em 2022, interrompam o fluxo fascista que assola o país.

 

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