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Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros

Corrinha Mão na Massa

Tipo Crônica

Final de tarde do domingo. As nuvens do sertão de Missão Velha tomavam a cor de cerâmica crua ao tempo em que chegávamos à casa de Corrinha Mão na Massa. O terreiro limpo, o barro descansando, coberto por mantas de plástico, e ela apreciando o pôr do sol na calçada que dá para um pé de urucum carregado de frutos ainda verdes, com seus enfeites de cápsulas de espinhos maleáveis.

Quando viu o Júnior, com quem estávamos, Corrinha ficou em estado de alegria. O Júnior dos Santos foi menino da Fundação Casa Grande, de Nova Olinda, e é um dos gestores daquela instituição de educação e cultura na prática. Entre tantas atividades que desenvolve, ele trabalha na identificação e implantação de museus orgânicos na região do Cariri, com apoio do Sesc.

A casa e a oficina de Corrinha Mão na Massa se tornarão em breve um desses museus vivos, integrados a um sistema de espaços de relevância cultural, ao lado dos museus orgânicos Espedito Seleiro, Dona Dinha, Mestre Antônio Luiz e Françuli, entre outros.

A história dessa mestra guerreira começa quando a menina Socorro ainda era chamada apenas de Corrinha e morava em uma comunidade no interior, onde a escola oferecia apenas o ensino fundamental. Concluído o último ano, ela repetia a série final pela simples vontade de continuar estudando.

Acontece que, no caminho da escola, ela passava por uma olaria que atraía a sua curiosidade de maneira intensa. A menina observava as pessoas modelando o barro e começou a ter vontade de também fazer objetos de cerâmica. Foi notada em sua contemplação e convidada a tentar a arte do barro. Em apenas dois meses Corrinha fez um lindo pote, sem necessidade de torno, e ganhou o nome artístico que carrega hoje: Corrinha Mão na Massa.

A relação com o barro adquiriu um grau de importância tão elevado em sua vida que Corrinha transformou o seu cotidiano em permanente dedicação a esse trabalho. Nunca quis adotar o torno para a execução das obras; diz altiva que ela é o próprio torno em que sua obra se realiza.

Decidida a viver como ceramista, ela procurou montar uma estrutura para isso. Mesmo com o receio que tinha de se endividar, conseguiu um empréstimo de R$ 1.000,00 em um programa de estímulo a pequenos empreendedores e passou a produzir em casa. Quitou o débito antes do prazo, ganhou um bônus de boa pagadora, fez um novo empréstimo de R$ 1.500,00 e, daí em diante, caminhou sozinha.

O caso de Corrinha Mão na Massa atesta o quanto muitas vezes as pessoas não precisam de muitos recursos financeiros para deflagrarem um processo de realização. Claro que gente que tem fé, que encontra prazer no que faz e que se determina a ocupar o lugar que merece no mundo ajuda a construir a própria sorte.

Corrinha Mão na Massa foi destaque na agência de financiamento que lançou a linha de crédito popular que facilitou que ela desse o passo necessário para se estabelecer como empreendedora. Graças a isso foi convidada a contar sua história em Fortaleza e em Brasília. E ela relata tudo com muita firmeza e gratidão, unindo a força da voz e a ternura do olhar.

Com a consistência de uma obra de cerâmica bem moldada e com o espírito movido pela grandeza das pessoas que conseguem unir dom, crença e convicção para dar sentido à vida, essa artesã caririense mostra que nasceu do barro e acredita na força da terra que tem dentro de si. Animada, já fez até uma silhueta de pote que servirá de placa para o seu museu orgânico.

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