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Na fonte de Abidoral Jamacaru
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Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros

Na fonte de Abidoral Jamacaru

Flávio Paiva: "Esses são alguns dos tantos motivos que me levaram a querer vislumbrar a chegada de 2026 ao lado de Abidoral"
Tipo Crônica
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Abidoral Jamacaru (Foto: Samuel Macedo/divulgação)
Foto: Samuel Macedo/divulgação Abidoral Jamacaru

Tenho procurado estar cada vez mais com gente que consegue desobrigar-se dos enquadramentos sociais que levaram parte significativa do mundo à bancarrota. Foi assim que procurei encerrar 2025 ao lado de algumas pessoas de práticas de vida inspiradoras na região do Cariri. Para o jantar de Ano-Novo, convidei meu velho amigo e parceiro Abidoral Jamacaru, 77 anos, que assumiu o risco de ser permanentemente o que é, vivendo e produzindo uma obra musical que expressa o que há de real na sua maneira de viver.

Dois conceitos me vêm à cabeça quando penso em Abidoral. Ele tem “defeito de fabricação”, como diz Tom Zé referindo-se àquelas pessoas que não foram enquadradas pelo tecnocapitalismo e, por isso, são vistas como imperfeitas no jogo das aspirações sociais. Tem também o dom de não se deixar formatar pela “domesticação de seres humanos”, sistema de controle dos sonhos de nossas vidas advertido pelo xamã mexicano Don Miguel Ruiz a partir da cultura pré-colombina Tolteca.

O sonho exterior, que estabelece padrões de comportamentos de moldura material e que ensina em que se deve acreditar, não teve força suficiente para modelar o autor de “Incomensurável”: “Eu te dou de presente o aroma da flor / O zumbido da abelha / A frescura da chuva pra você levar”. Em Abidoral, o amor sai diretamente de tudo o que o circunda, das árvores, dos animais, das pessoas que andam pelas ruas e dele mesmo, enquanto ser que existe sem a necessidade de justificar a existência.

Na música “Estrelas Riscantes”, uma das composições que fizemos juntos, ele canta: “Meu coração tem a sã vocação de viver”; entretanto, não perde o senso de alerta em “O Peixe”, parceria com Patativa do Assaré: “Tendo por berço lago cristalino / Folga o peixe a nadar todo inocente / Medo ou receio do porvir não sente / Pois vive encalço do fatal destino // Se na ponta de um fio longo e fino / A isca à vista ferra inconsciente / Ficando o pobre peixe de repente / Preso ao anzol do pescador ladino”.

Algo irradia bonito em Abidoral Jamacaru. Ele realça tudo o que é enorme, presente no detalhe, como na cantiga “O Pingo e os Óculos”, de sua autoria: “Brilha o pingo / que sobrou da chuva / de hoje pela tarde / nos meus óculos / quando fui passear // Cabelos da cor de arco-íris / viu meus óculos / e o pingo contra a luz a te olhar”. É essa originalidade de quem sabe o que sente um dos encantos desse artista desperto para a realidade da riqueza dos que não precisam de muito.

Esses são alguns dos tantos motivos que me levaram a querer vislumbrar a chegada de 2026 ao lado de Abidoral. No entanto, encontrá-lo no Crato foi uma história à parte. Primeiro, porque ele perdeu o celular e não está nem um pouco preocupado com isso; segundo, porque, em razão de morar sozinho, ele fica pouco em casa; e, terceiro, em decorrência do gosto que tem de andar pelas ruas, conversando em calçadas e praças.

Ao bater na porta da sua casa, percebi outras portas na rua que se abriram, e, de modo afável, os vizinhos me deram informações de que ele poderia estar no calçadão ao lado, nas praças Siqueira Campos ou da Sé, ali, acolá, fazendo isso ou aquilo. Nos lugares sugeridos, escutei: “Esteve aqui agora mesmo”, “Tomou café naquela lanchonete”, “Desceu pela rua ao lado”. Resolvi voltar à casa, onde um trecho de “Lá de Dentro” está fixado na parede em uma placa de metal: “Canto / De canto em canto / Sou um dos quantos / Estende a voz por tantos”. Silêncio. Foi quando, icônico como um Soldadinho-do-Araripe, ele pousou suavemente na fonte, e fomos jantar no sopé da Chapada.

Foto do Flávio Paiva

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