Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros
Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros
Quem usufrui da hospedagem rural domiciliar Lavida, no Sítio Lírio, em Santana do Cariri, imerge em um sistema agroflorestal de base familiar, com reciprocidade econômica popular e turismo comunitário sustentável, desenvolvido na borda da Floresta Nacional do Araripe, em uma altitude de aproximadamente 900 metros. Estive lá no período entre o Natal e o Ano Novo e constatei que aquele espaço reflete um exitoso paradigma do viver em equilíbrio ecossistêmico.
Conceitos como o de recurso, utilidade e êxito ganham outros contornos diante do poder de interação natural e social demonstrado pelo casal Damiana e Bibi e por seus filhos Laís e Lázaro, que estão à frente desse projeto que subverte crenças cristalizadas do êxodo rural. A organicidade está presente no modo de vida, na aplicação e compartilhamento de saberes e conhecimentos da família decorrentes dos cuidados com a Mãe-Terra.
A cultura Lavida está ancorada no comportamento respeitoso e na clareza das habilidades e domínios individuais que regem o movimento incremental e interdependente de seus membros. Maria Laís une sensibilidade e cognição aguçadas; Lázaro é intuitivo e inventivo; Damiana inclina-se para o racional e operativo; e Bibi é todo sabedoria empírica. Esses atributos asseguram a externalidade da ação conjunta, o que os torna referência no âmbito da agricultura familiar acolhedora.
Lavida é uma palavra caseira, montada com letras iniciais de nomes e sobrenomes da família, que comunica com clareza a conexão entre ser e viver facilmente percebida mesmo em poucos dias de convivência. Durante as atividades de campo, eles não falam sobre o que fazem, apenas se expõem em uma encantadora satisfação de contar. Seus hábitos, valores, princípios, ideias e crenças grudam em nós e nos estimulam a disseminar o que sentimos, como grãos de pólen nos corpos das abelhas para a polinização.
A atividade principal dessa família depende das flores, que existem para atrair a atenção dos insetos, e do cuidado com as abelhas, que têm uma perfeita relação de mutualismo com as flores. A flora apícola da região é bem variada. Nos dias em que passei lá tinha mel de cipó-uva, juá e visgueiro, mas, dependendo das floradas, é comum ter meles de aroeira, bamburral, copaíba, marmeleiro, pau d´arco (ipê) e vassourinha para produção a partir de flor específica ou multifloral. A produção de mel 100% natural produz impacto positivo na preservação do meio ambiente.
Manter, com manejo adequado, a criação de ovinos, caprinos, galinhas, capotes e patos e um pomar integrado com árvores nativas e adubado de maneira orgânica é também uma maneira de equilibrar o sistema Lavida. A pouca água disponível exige a maximização de recursos, de modo que as fruteiras vivam muito perto do limite tolerado para a sobrevivência. Pequi, ata, amora, laranja, tangerina e outras frutas povoam o quintal. Amei tomar café da manhã metendo a mão na jaca tirada pelo Bibi do pé que fica ao lado da comedoria e dar umas goladas de cachaça de cambuí feita pela Laís.
A forma de pensar e de agir do Lavida, avigorada com o apoio da Agência de Turismo Comunitário de Nova Olinda e da rede de museus orgânicos da Fundação Casa Grande e do Sesc/Ceará, contribui também para fortalecer práticas cooperativas nas comunidades do entorno. Famílias agricultoras e artesãs interatuam por meio de associações de produtores e da participação em eventos que movimentam as relações sociais, culturais e econômicas naquele relevo em forma de mesa da Chapada do Araripe.
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