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O paradigma Lavida
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Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros

O paradigma Lavida

Lavida é uma palavra caseira, montada com letras iniciais de nomes e sobrenomes da família, que comunica com clareza a conexão entre ser e viver facilmente percebida mesmo em poucos dias de convivência
Tipo Crônica
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Imagem ilustrativa para crônica de Flávio Paiva. NOVA OLINDA, CE, BRASIL, 22-06-2017: Trilha do geossítio Ponte de Pedra. Especial Rotas do Semiárido - Sertão dos fósseis, Geossítio Ponte de Pedra, apresenta uma geoforma esculpida no arenito, resultado da erosão provocada pela água ao longo dos últimos milhões de anos, que resultou na ponte de pedra, período cretáceo. (Foto: Tatiana Fortes/O POVO) (Foto: TATIANA FORTES)
Foto: TATIANA FORTES Imagem ilustrativa para crônica de Flávio Paiva. NOVA OLINDA, CE, BRASIL, 22-06-2017: Trilha do geossítio Ponte de Pedra. Especial Rotas do Semiárido - Sertão dos fósseis, Geossítio Ponte de Pedra, apresenta uma geoforma esculpida no arenito, resultado da erosão provocada pela água ao longo dos últimos milhões de anos, que resultou na ponte de pedra, período cretáceo. (Foto: Tatiana Fortes/O POVO)

Quem usufrui da hospedagem rural domiciliar Lavida, no Sítio Lírio, em Santana do Cariri, imerge em um sistema agroflorestal de base familiar, com reciprocidade econômica popular e turismo comunitário sustentável, desenvolvido na borda da Floresta Nacional do Araripe, em uma altitude de aproximadamente 900 metros. Estive lá no período entre o Natal e o Ano Novo e constatei que aquele espaço reflete um exitoso paradigma do viver em equilíbrio ecossistêmico.

Conceitos como o de recurso, utilidade e êxito ganham outros contornos diante do poder de interação natural e social demonstrado pelo casal Damiana e Bibi e por seus filhos Laís e Lázaro, que estão à frente desse projeto que subverte crenças cristalizadas do êxodo rural. A organicidade está presente no modo de vida, na aplicação e compartilhamento de saberes e conhecimentos da família decorrentes dos cuidados com a Mãe-Terra.

A cultura Lavida está ancorada no comportamento respeitoso e na clareza das habilidades e domínios individuais que regem o movimento incremental e interdependente de seus membros. Maria Laís une sensibilidade e cognição aguçadas; Lázaro é intuitivo e inventivo; Damiana inclina-se para o racional e operativo; e Bibi é todo sabedoria empírica. Esses atributos asseguram a externalidade da ação conjunta, o que os torna referência no âmbito da agricultura familiar acolhedora.

Lavida é uma palavra caseira, montada com letras iniciais de nomes e sobrenomes da família, que comunica com clareza a conexão entre ser e viver facilmente percebida mesmo em poucos dias de convivência. Durante as atividades de campo, eles não falam sobre o que fazem, apenas se expõem em uma encantadora satisfação de contar. Seus hábitos, valores, princípios, ideias e crenças grudam em nós e nos estimulam a disseminar o que sentimos, como grãos de pólen nos corpos das abelhas para a polinização.

A atividade principal dessa família depende das flores, que existem para atrair a atenção dos insetos, e do cuidado com as abelhas, que têm uma perfeita relação de mutualismo com as flores. A flora apícola da região é bem variada. Nos dias em que passei lá tinha mel de cipó-uva, juá e visgueiro, mas, dependendo das floradas, é comum ter meles de aroeira, bamburral, copaíba, marmeleiro, pau d´arco (ipê) e vassourinha para produção a partir de flor específica ou multifloral. A produção de mel 100% natural produz impacto positivo na preservação do meio ambiente.

Manter, com manejo adequado, a criação de ovinos, caprinos, galinhas, capotes e patos e um pomar integrado com árvores nativas e adubado de maneira orgânica é também uma maneira de equilibrar o sistema Lavida. A pouca água disponível exige a maximização de recursos, de modo que as fruteiras vivam muito perto do limite tolerado para a sobrevivência. Pequi, ata, amora, laranja, tangerina e outras frutas povoam o quintal. Amei tomar café da manhã metendo a mão na jaca tirada pelo Bibi do pé que fica ao lado da comedoria e dar umas goladas de cachaça de cambuí feita pela Laís.

A forma de pensar e de agir do Lavida, avigorada com o apoio da Agência de Turismo Comunitário de Nova Olinda e da rede de museus orgânicos da Fundação Casa Grande e do Sesc/Ceará, contribui também para fortalecer práticas cooperativas nas comunidades do entorno. Famílias agricultoras e artesãs interatuam por meio de associações de produtores e da participação em eventos que movimentam as relações sociais, culturais e econômicas naquele relevo em forma de mesa da Chapada do Araripe.

 

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