Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros
Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros
Depois de cruzar a divisa entre Ceará e Pernambuco pelo topo da Chapada do Araripe, um dos primeiros lugares emblemáticos que se encontra é Tabocas, distrito de Exu, terra originária da etnia Ançu, da nação Cariri. Para chegar a essa reserva de mundo bucólico com pouco mais de dois mil habitantes, é preciso deixar a PE-585 e descer ladeira adentro em uma paisagem formada por escarpas, casas de fazendas, pastagens, roças e riachos até chegar à vila cheia de histórias e referências culturais.
Casas com fachadas coloridas, ruas de calçamento em pedra tosca e um céu tinindo de azul pontuado por nuvens de cúmulos pareciam esperar pacientemente a nossa chegada. Sentado em uma cadeira de balanço na entrada da sua bodega, estava um dos ricos personagens do lugar, o João Barela. Aquele típico ambiente de venda de secos e molhados do interior tem uma particularidade inusitada: pendurados no teto de madeira, pôsteres de Lampião, Bin Laden, Saddam Hussein e Che Guevara, entre outras figuras que o dono do estabelecimento recorre como chama para puxar assunto.
Mas a conversa fica boa mesmo é quando ele começa a contar da sua relação com Luiz Gonzaga no tempo em que ambos moravam no Rio de Janeiro. A admiração fabuladora que ele tem pelo Rei do Baião está visualmente em destaque na pintura disposta entre Lampião e Padre Cícero, logo na fachada do prédio. Ali, matriculamos a entrada na "Rota Caminhos de Gonzaga", um dos roteiros conceituais que a secretária de Cultura e Turismo de Exu, Isa Apolinário, vem trabalhando com sua equipe, tendo o suporte de Júnior dos Santos, expert em turismo de base comunitária, que estava com a Andréa e comigo nessa vivência significativa.
O sertão-lembrança do cancioneiro de Gonzaga rapidamente me trouxe uma imagem musical involuntária: "Lá no meu pé-de-serra / deixei ficar meu coração", sua primeira parceria com Humberto Teixeira. Embalado por esse xote comovente, visitei três museus orgânicos que remetem à indumentária característica de um artista que levou o país a abraçar sua região pela grandeza da cultura. Os mestres Zé Venceslau, Xico Aprígio e Tonho dos Couros estavam todos em suas oficinas, e o que não faltou foi uma rodada de bem-humoradas histórias de gibão e chapéu-de-couro. Não à toa que o Rei do Baião encantou o Brasil com o artesanato coureiro daquelas paragens.
A particularidade permanente encontrada nas pessoas e no mundo vivido por elas em plenitude agita camadas de signos poéticos e sonoros como uma mediação sensível entre o lugar e a música de Luiz Gonzaga. Tudo tem algo a dizer, do canto das casacas-de-couro às sombras frescas que negam o domínio absoluto do sol. Aparentemente quieta, a região se oferece com familiaridade à reconstituição dos conectivos cruzados que nos aproximam da substância telúrica que propaga, em um afetivo reouvir do tempo social nordestino, sua labuta, suas crenças, sua diáspora e seus ritmos.
A estrada de terra termina no asfalto da BR-122, e tomamos o rumo da cidade de Exu, tendo a presença de Luiz Gonzaga por todo canto, porque ele está no ar que se respira naquela cartografia que nos conduz pela intimidade fecunda de sua obra. É como se cada exuense estivesse a nos dizer que seu pertencimento também nos pertence. Não tinha como ser diferente, com o povo de um lugar que acompanhou seu rei por todo o país, recebendo aplausos calorosos pelo brilho radiante da cultura nordestina, e que, como memória viva, continua sentado no alpendre natural do sopé da Chapada do Araripe.
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