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Um lugar chamado Manchete
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Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros

Um lugar chamado Manchete

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Há lugares que não nos pertencem, mesmo que patrimonialmente sejam nossos. O Sítio Pelo Sinal I, em Independência, que meu pai chamou espirituosamente de Manchete, foi construído por ele e pela minha mãe ao longo de muitas décadas, enquanto ele cuidava de animais, e ela de flores. A casa, belamente vazada para a passagem espontânea dos ventos do sertão dos Inhamuns, foi projetada pelo meu irmão, com seu dom e técnica de criar ambientes agradáveis.

Bem antes de fazer a viagem de volta em 2015, em uma boa morte aos 94 anos, meu pai Toinzinho me disse que estava guardando peças da sua labuta e da vida cotidiana daquele lugar para que um dia a casa viesse a ser um museu. Depois de uma década mantendo tudo funcionando, doando efetivamente metade da fazenda ao Manezinho e ao Lisboa, trabalhadores que o acompanharam por muitos dos seus últimos anos, e vendendo parte da propriedade para a sustentação da minha mãe, Socorro (88 anos), que desde então passou a morar em Fortaleza, estão criadas as condições para a realização dessa vontade.

Assumi, com a confiança dos meus irmãos Paulo e Cynara, e com as bençãos da nossa mãe, a condução dos dez hectares rurais restantes, que tangenciam a zona urbana, para, no momento propício, dar sequência a esse sonho de presentear Independência com um parque de cultura e preservação ambiental. Como sou movido por ações de infância e cidadania orgânica, a minha contribuição se dará nesses campos de sentido. Essa é a ideia, considerando a intuição, os sentimentos e os impulsos imaginativos de quem brincou e desempenhou tarefas ali quando era apenas um terreno de plantar e de criar afastado da cidade.

Do núcleo constituído pelo casal, não há mais ninguém morando em Independência. O que fundamenta essa decisão, além da visão e da história de conquistas do meu pai como referência na criação de ovinos e caprinos, é a existência de um modo de vida que une simplicidade comportamental e grandeza ontológica. Particularmente, sou muito grato à cidade onde nasci por ter sido educado em casa, na escola e nas ruas com tanto amor que, por onde ando, não deixo de dizer que sou de lá. Sem contar que ali também convivi com parte significativa das personagens das minhas literatura e música.

O próprio nome Manchete é um ícone semiótico presente nessa relação. Meu pai deu esse nome à fazenda após ouvir de mim que no jornalismo se chama a atenção para uma notícia importante dando-lhe destaque na capa de um jornal ou revista ou na abertura de um programa, de maneira curta, clara e impactante, para que o público se interesse em ler, ver e ouvir o conteúdo completo. À época, ele ainda tinha uma propriedade no Poço Comprido, no limite de Independência com Tauá, onde mantinha todo o rebanho. Como era pequeno o Sítio Pelo Sinal I, onde retinha o plantel de animais-modelo, ele nominou o lugar de Manchete, pois ali se encontravam as 'chamadas' que levavam compradores à criação no interior do município.

A Manchete não seguiu qualquer padrão de agricultura e pecuária, apenas formou-se a partir da sabedoria prática dos nossos pais e de suas relações. Procuro manter esses vínculos com quem dá vida ao lugar. O Manezinho e o Lisboa, que hoje são donos das terras vizinhas desmembradas, mantêm a circulação de animais domésticos intra-propriedades, em uma parceria rural por princípio mutualista. Isso me parece ser uma maneira de respeitar e de renovar evidências do que meu pai conceituou de "Sistema", um modo de inventar o mundo com satisfação.

 

Foto do Flávio Paiva

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