Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros
Flávio Paiva é jornalista e escritor, autor de livros nas áreas de cultura, cidadania, mobilização social, memória a infância. Escreveu os livros
Na visita que fiz ao Museu Nacional de Antropologia, em Luanda (03/02), senti das peças expostas mensagens que me levaram a produzir vínculos entre a essência das inúmeras etnias que formam o país e sua realidade atual. O povo angolano constituiu-se em áreas socioculturais emaranhadas por nomadismos, migrações e relações inter-raciais. Os khoisan formaram os agrupamentos originários, mas a população tem predominância bantu, grupo centro-africano que chegou àquele território por volta do século VI.
A coleção é composta por alguns dos principais símbolos do poder tradicional, tais como as máscaras vinculadas ao dom dos espíritos (Mukixi), o trono (Ngunda) esculpido em madeira com cenas cotidianas, o abano de cauda animal (Mufuka) usado para espantar infortúnios, a coroa (Banda) de fibra de imbondeiro (baobá) ornamentada com unhas de leopardo, um ancestral do agogô (Ngongi), com campânulas sem badalo e sua vareta de madeira para percussão, e o cachimbo da solidariedade (Lilweka), feito de madeira e ferro e ornamentado com figuras humanas.
Ali está também uma das mais belas e a mais popular escultura de madeira do país (Kuku), que representa um ancião sentado com os cotovelos sobre os joelhos e as mãos sobre a cabeça. Símbolo da cultura nacional, “O Pensador” é uma criação da etnia Cokwe que virou amuleto de adivinhadores (Thahi), tendo recebido de mãos artesãs o acréscimo de outros elementos socioculturais, como a figura da mulher pensadora com criança nas costas.
Antes da instalação do colonialismo europeu (século XV), as sociedades africanas mantinham aparatos de governança com soberanos que asseguravam o legado ancestral e a equidade de justiça nos conflitos comunitários. Os portugueses converteram chefes tribais (sobas) ao cristianismo e a outros discursos eurocêntricos para que auxiliassem a política colonial na aproximação, conquista da confiança e silenciamento de diversos grupos étnicos.
Na luta para se defender do regime autoritário salazarista (1933 a 1974) e contra o sistema de exploração colonial, que resultou na independência do país (1975), a exacerbação das fidelidades étnicas (tribalismo angolano) tornou complexa a sedimentação política. O governo estatal estabelecido procurou reabilitar algumas autoridades tradicionais para a mobilização em favor da construção do país independente, mas o antagonismo ferrenho dos grupos de poder, somado à acirrada rivalidade étnica, acabou em guerra civil (1976 a 2002).
As riquezas angolanas espalhadas em um território de mais de 1,2 milhão de km2, com destacadas minas de diamante, gás e petróleo, barragens que garantem autossuficiência energética e potencial agrícola, não conseguem atender às necessidades básicas de uma população de 40 milhões, da qual um quarto mora na capital. Os angolanos assimilados (que se sentem portugueses) ainda têm Lisboa como metrópole, e os não-assimilados deixam o campo, onde há fartura de fruta e caça, para inchar Luanda, onde muitos se tornam coletores em latas de lixo.
O Hino Nacional do país, “Angola Avante”, fala de “Um só povo, uma só Nação!”, mas é a música “Angolano segue em frente”, do compositor Teta Lando (1948 – 2008), que aponta a saída, ao apelar às pessoas de todas as etnias e cores que não desistam de ser angolanos, mesmo que a vida continue difícil: “O que interessa é a tua vontade de fazer Angola melhor / Uma Angola verdadeiramente livre / Uma Angola independente / Angolê, eh-eh-eh”. Porque ser angolano é, antes de tudo, uma questão de crença.
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