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Uma tragédia e duas visões

Haverá quem lance à questão o peso político-eleitoral que todo tema em discussão no Brasil hoje leva, mas, é fato, aparecem duas formas muito diferentes de encarar o drama da Covid-19 quando se observa os comportamentos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do governador Camilo Santana (PT). Por um tempo rápido poderíamos desconsiderar siglas e informações entre parênteses, que para muitos bastam como definição de uma pessoa, e tentar perceber as atitudes de cada um diante do mesmo problema.

Bolsonaro, após mais de um ano de pandemia no Brasil, tempo que tem gerado macabras estatísticas diárias de mortes, até hoje demonstrou-se incapaz de uma só declaração que expusesse algum nível de sofrimento com a dor alheia. Não apenas de quem esteve diretamente contaminado pelo vírus, mas de seus parentes, de famílias inteiras devastadas e que não têm merecido qualquer gesto de solidariedade do presidente do Brasil. Ao contrário, há manifestações dele até ofensivas às vítimas e suas famílias, reclamando do "mimimi", da "frescura", que parece "um país de maricas", traçando uma linha de queixas contra medidas que focam a vida e, diz ele, esquecem a economia.

Camilo, em linha contrária, faz um percurso em que, de fato, a preservação da vida aparece como a preocupação inicial e principal. Está errado? Para Bolsonaro sim, porque "as medidas de isolamento social não resolveram", "a intenção de governadores e prefeitos é desgastar o Governo Federal" e outras coisas mais equivocadas de seu discurso, considerando que não há estratégia bem executada nesse sentido que permita levar a conta diretamente a Brasília sem antes passar por Fortaleza (no caso do Ceará) ou pela prefeitura de cada município onde a situação estiver, na ponta, se verificando. E quase não há exceção, infelizmente. É uma versão que precisa de um olhar muito ideológico (e enviesado porque boa parte dos gestores locais são aliados do presidente) para ganhar alguma consistência.

A verdade é que o Brasil paga o preço altíssimo da opção do presidente da República (sim, dele) pela politização de um quadro que lhe exigia, mais do que de qualquer outro governante brasileiro atual, uma capacidade de comandar um esforço de unidade nacional pela vida. Nesse sentido, ajudando as demais instâncias de poder no convencimento à sociedade de que a saída que existe, como emergência, é conter a circulação do vírus, algo somente possível através de medidas que aumentem o isolamento social.

Houvesse tal unidade a discussão sobre a outra ponta do problema, na qual estão os devastadores efeitos econômicos, aconteceria num plano mais sereno e as coisas poderiam estar acontecendo de outra forma. Há uma queixa justíssima das empresas acerca disso, realmente o Estado precisa oferecer melhores respostas e mais rápidas ao problema que se cria com a redução das atividades econômicas, algo que tem parecido impossível porque são medidas adotadas dentro de um contexto de pouco consenso até entre as autoridades públicas. Muito embora a ciência, com seus dados frios, lhes respalde com grande folga. A questão é que quando falta acordo sobre o básico, todo o resto é consequência.

Do espanto aos números

O espanto do senador Tasso Jereissati (PSDB) com as cenas da passagem mais recente do presidente Bolsonaro pelo Ceará, em 26 de fevereiro, começa a se transformar em números, justificando-se. É ver o caso de Tianguá, a 322 km de Fortaleza, onde, à época da visita, oito dos 10 leitos de UTI no município encontravam-se ocupados. Hoje, não há mais vaga disponível e a saída é levar o paciente às pressas para Sobral, a 89 km, e lá entrar numa fila. Falta de aviso não foi.

Por enquanto, silêncio

Aliás, a turma do núcleo cearense do Ministério Público Federal continua à espera de resposta do gabinete do Procurador da República, em Brasília, à provocação que fizeram para que o episódio tianguaense motive a abertura de uma investigação contra o presidente Bolsonaro. Augusto Aras, como tem-se transformado em marca de sua contestada gestão, senta-se em cima do pedido e nada diz, sequer para, como é regra do seus procedimentos, arquivar.

Fazer do giro um jirau

Não que ele queira, porque agradável não é, mas a ação do presidente Bolsonaro contra o pré-candidato do PDT ao Palácio do Planalto, Ciro Gomes, chega para ele numa hora política oportuna. A reentrada de Lula no cenário, com a anulação de suas condenações pela Lava Jato, parecia uma ameaça ao espaço do pedetista e a situação já aparecia nas pesquisas divulgadas ao longo da semana. De alguma forma, o episódio recoloca seu retrato na primeira fila da galeria dos anti-Bolsonaro.

O apelo da médica

Mayra Pinheiro, a cearense que até agora segue firme na equipe do Ministério da Saúde - chegou com Luiz Henrique Mandetta, permaneceu com Nelson Teich e continua com o General Pazuello -, fez circular áudio de apoio aos colegas médicos que, na semana, assinaram manifesto em defesa do presidente Bolsonaro, no qual lhes pede que não recuem. Segundo diz, está havendo medo de perseguição e uma pressão para retirada de nomes, sem identificar direito de onde partiria.

Novo destino às sobras

Há nuances da PEC do auxílio emergencial, promulgada e já em vigência, para as quais é necessário muita atenção nos municípios. Por exemplo, qualquer saldo financeiro de duodécimo repassado à Câmara de Vereadores, mesmo que seja resultado de zelo de uma gestão ou de capacidade de economizar, necessariamente terá que ser devolvido ao erário ou deduzido nas parcelas a serem transferidas para o exercício seguinte. Parece um detalhe ínfimo, mas não é.

Pode isso Arnaldo?!?

Esdrúxulo demais, mesmo para os leigos, como eu, a sugestão do procurador cearense do Tribunal de Contas da União (TCU), Lucas da Rocha Furtado, no sentido de trocar Jair Bolsonaro por Hamilton Mourão como presidente da República de uma hora para outra, apenas porque ele quer. Sem processo, sem investigação, sem impeachment. Parece que a facilidade de afastar um presidente, demonstrada no caso Dilma Rousseff, com as tais pedaladas, andou acostumando mal o pessoal.

BATE-PRONTO

O deputado estadual Heitor Férrer comemora a suspensão do projeto do bondinho elétrico de Fortaleza pelo governador Camilo Santana (PT), mas avisa: quer a suspensão definitiva. Confira uma conversa rápida dele com a coluna:

O POVO - A decisão do governador de suspender o projeto do bondinho elétrico lhe atende?

Heitor Férrer - O bom-senso prevaleceu, pelo menos temporariamente. O que eu defendo, no entanto, é a suspensão em definitivo dessa obra que não é prioritária, independente da pandemia.

O POVO - Por que é contra? Não seria útil, num contexto de pós-pandemia, ao turismo de Fortaleza?

Heitor Férrer - É inimaginável que se gaste 116 milhões de reais para um bondinho andar dois quilômetros. Esse deslocamento do turista deve estar dentro do sistema de transporte público. Construir um equipamento específico para isso não é prioridade em momento algum. Para o turista, é mais interessante palmilhar a cidade e conhecer suas peculiaridades.

O POVO - Fosse hoje prefeito de Fortaleza, eleito em 2020, a posição seria a mesma?

Heitor Férrer - Sem dúvidas. A prioridade de todo gestor deve ser a melhoria da vida do cidadão. A nossa economia não comporta, que num Estado onde 5 milhões de pessoas vivem na pobreza e outros 3 milhões na extrema pobreza, esses valores sejam gastos em um bondinho para turista ver. É irresponsabilidade administrativa.

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