Logo O POVO+
A alegria dos patriotas com o sucesso de "O Agente Secreto", filme excelente
Comentar
Foto de Guálter George
clique para exibir bio do colunista

Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).

A alegria dos patriotas com o sucesso de "O Agente Secreto", filme excelente

Há um padrão fácil de ser localizado na maioria absoluta dos ataques que o filme tem sofrido, apesar de recentemente indicado para disputa do Oscar em quatro categorias e de estar sendo aclamado em festivais de grande repercussão global, como se deu em Cannes, por exemplo
Comentar
Foto: Vitrine Filmes/Divulgação "O Agente Secreto" é indicado a quatro categorias no Oscar de 2026

Era previsível, mas está chegando a um nível próximo do insuportável. O debate sobre o filme "O Agente Secreto", sua trajetória exitosa no cenário internacional e o valor que tem como produto cinematográfico, está desviado para o campo da política. Com a contaminação que isso determina, muitas vezes tirando a capacidade de se fazer uma análise que coloque na perspectiva justa a sua qualidade real, nos aspectos que de fato fazem uma obra do gênero boa ou ruim.

O problema, assim tratarei, é especialmente visto quando a análise parte de quem demonstra simpatia por ideias à direita, incluindo segmentos da chamada crítica especializada. Constata-se com larga recorrência que o "esquerdismo" dos personagens principais, como o diretor, Kléber Mendonça, e o ator protagonista, Wagner Moura, parece se bastar como sustentação de uma ideia negativa e para colocar em xeque os atributos positivos do filme. Quando, no melhor critério, uma coisa não precisará ter a ver com a outra.

Há um padrão fácil de ser localizado na maioria absoluta dos ataques que o filme tem sofrido, apesar de recentemente indicado para disputa do Oscar em quatro categorias e de estar sendo aclamado em festivais de grande repercussão global, como se deu em Cannes, por exemplo. Antes de entrar no bombardeio retórico, faz-se um preâmbulo de que é preciso remar contra a maré, que a opinião vai desagradar uma maioria acrítica, blá blá blá, a partir dai apresentando-se uma conclusão que considerará inexplicável o clamor que se criou em torno da obra.

Claro, atribuindo-se razões políticas a uma eventual reação negativa às críticas com base numa alegada simpatia geral de artistas e técnicos à pauta de esquerda. É fato que "O Agente Secreto" criou um barulho muito forte em torno de si, da mesma forma que não é segredo que kléber e Wagner são figuras há muito identificadas com partidos e políticos ditos progressistas no Brasil. Porém, oferecer a este ponto mais atenção do que ele merece representa ignorar que o reconhecimento à força da obra e de sua mensagem parte de origens as mais diversas e parece longe de ser algo concentrado no esquerdismo brasileiro como uma espécie de nicho.

O festival de Cannes apresenta um tipo de jurado, quem premia no Critics Choice Awards tem outro perfil, os que escolhem os melhores no Globo de Ouro fazem parte de um terceiro colegiado, não necessarimente confundível com os que votam para as disputadas indicações finais do Oscar, enfim, o reconhecimento ao filme brasileiro não é fruto de uma ação política direcionada e se espalha por caminhos diferentes entre si.

Citei apenas alguns dos muitos exemplos disponíveis de uma trajetória altamente vitoriosa. Não tira pedaço de quem é de direita, conversador, antipetista, inimigo e crítico do Lula e tudo mais que indique rejeição ao que está ai como governo, olhar para uma obra cultural analisando-a pelo que represente de verdade, com espírito puro e aberto.

Eu, por exemplo, gosto do filme pelo que ele expõe de uma brasilidade gritante. O diretor, um pernambucano bairrista como todo pernambucano gosta de ser, leva Recife ao olhar do mundo dentro de um contexto compreensível a todos, valendo-se de um roteiro político, sim, mas criativo, que amarra as pontas da história, dá sentido a cada ação e cada personagem, além, como fator ainda mais extraordinário, de pegar uma lenda urbana muito recifense (da perna cabeluda) e, entendo, colocar no meio da história da maneira mais natural possível. Tudo isso enriquecido por uma atuação destacada do elenco de atores e atrizes, para além do protagonismo reconhecido e premiado de Wagner Moura.

Claro que a opinião é minha e, como tentei advertir antes, não sou um cinéfilo. Ninguém precisa ir na mesma linha e quem não tiver gostado do filme deve dizer que não gostou, não há problema nisso, desde que não exponha um incômodo vazio e indevido com a alegria que nos tem proporcionado o sucesso além-fronteiras de um produto cultural profundamente verde e amarelo. Coisa, na essência, de patriota.

Foto do Guálter George

A política do Ceará e do Brasil como ela é. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?