Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).
Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).
Tive oportunidade, num dia qualquer do ano de 2017, de entrevistar Deltan Dallagnol. Foi uma longa e boa conversa, numa sala reservada da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), pouco antes dele dar uma palestra para um auditório lotado de empresários ávidos por ouvir, naquele momento, um dos personagens mais buscados do Brasil. Afinal, era o chefe de uma investigação que colocara a política de pernas para o ar, encaminhando para uma condenação e consequente prisão, que viriam um tempo depois, simplesmente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com todo o peso que isso representava.
Sai bem impressionado, para ser sincero. Vi diante de mim um jovem muito sereno, de fala tranquila, educado e sem qualquer sinal de estrelismo, mesmo diante do fato incontestável de ser, naquele momento, uma das falas mais disputadas do cenário político brasileiro. Havia nas suas declarações e na forma como se comportava, no geral, uma admirável postura de afastamento das confusões decorrentes de sua atuação funcional como Procurador da República, que até aquele momento se acreditava firme e correta. Percebo hoje, nove anos depois, que era puro teatro.
A boa impressão já balançou com a troca do campo jurídico pelo espaço político que faria logo depois de concluídos os objetivos pessoais que parecia buscar na Lava Jato. Deixou o Ministério Público e abraçou uma candidatura à Câmara Federal vinculando-se aos adversários de quem ajudara a levar à prisão num processo que, ao final, acabaria anulado pelo conjunto de problemas que apresentava. A começar, o que torna sem efeito todo o resto, pelo fato de a vara de Curitiba onde ele correu ter sido declarada incompetente pelo Supremo Tribunal Federal (STF) numa decisão tardia, tomada depois de Lula cumprir 580 dias de prisão na superintendência da Polícia Federal do Paraná.
Dallagnol, um tempo depois, teve revelado um comportamento inadequado como coordenador da Lava Jato pelo vazamento de conversas, algumas criminosas mesmo, com colegas do Ministério Público e com o juiz Sergio Moro, que também trocaria a toga pelo Congresso, estando hoje como senador da República. Um nível de promiscuidade, no caso do ex-procurador, desalinhado com o que mostrara aquela pessoa com quem havia conversado um tempo atrás. Aliás, o mandato que obteve de deputado federal acabaria cassado por irregularidades praticadas na campanha, o que já diz muito da disposição real que tem de cumprir as regras do jogo.
Agora, realmente assustadora é a imagem que vi nos últimos dias de uma pregação de Deltan Dallagnol, no Paraná, misturando as coisas e, de joelhos e quase chorando, em oração a Deus para que retirasse do cargo público "aqueles que praticam corrupção". O uso da religião para esse tipo de coisa, especialmente partindo de quem um dia já dispôs dos instrumentos humanos para fazê-lo e optou por abrir mão, caracteriza má fé no ponto em que define partido e ideologia como alvo específico.
Há um outro Dallagnol hoje, tomado pelo fanatismo, ou aquele Dallagnol, tranquilo e ordeiro, com quem conversei lá atrás era um homem público com grande talento para arte de mentir e dissimular?
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