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Os caminhos inversos de Brasil e Argentina no mundo do trabalho
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Colunista de política, Gualter George é editor-executivo do O POVO desde 2007 e comentarista da rádio O POVO/CBN. No O POVO, já foi editor-executivo de Economia e ombudsman. Também foi diretor de Redação do jornal O Dia (Teresina).

Os caminhos inversos de Brasil e Argentina no mundo do trabalho

O Senado argentino acaba de aprovar, com 42 votos favoráveis e 30 contrários, projeto que altera a legislação trabalhista do país, dentre outras coisas aumentando a jornada de 8 para 12 horas diárias. A Câmara ainda votará a proposta
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O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente da Argentina, Javier Milei, na 66ª Cúpula de Líderes do Mercosul e Estados Associados, no Palácio de San Martín, em Buenos Aires, em 3 de julho de 2025 (Foto: LUIS ROBAYO / AFP)
Foto: LUIS ROBAYO / AFP O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente da Argentina, Javier Milei, na 66ª Cúpula de Líderes do Mercosul e Estados Associados, no Palácio de San Martín, em Buenos Aires, em 3 de julho de 2025

Há uma movimentação na política brasileira para, em meio a tanta bobagem que domina a pauta política atual, colocar em debate um tema de importância real para a vida das pessoas: uma rediscussão sobre a jornada de trabalho e a possibilidade de passá-la dos atuais 6x1 para 5x2, ou seja, tornar obrigatórios dois dias de folga para cada 5 de labuta. A ideia, que parece numericamente atestável, é de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.

É incerto que as coisas saiam da forma que pensam os defensores da aprovação de um modelo de jornada de trabalho menor, bloco que inclui o próprio governo. Há muita voz contrária, argumentando-se que pode prejudicar o próprio trabalhador, gerar demissões, desestimular empresas a fazerem contratações, ampliar o problema da informalidade etc, mas o certo é que a coisa já avançou o bastante para exigir do comando do Congresso que coloque a matéria em pauta.

Acontecerá, está anunciado. É evidente que a legislação trabalhista exige uma atualização aos tempos novos e a sociedade, através de suas forças representativas, precisa buscar caminhos que possibilitem ganhos reais às pessoas com a entrada de elementos tecnológicos no processo produtivo. Há um tempo que sobra, inevitavelmente, e parece justo que parte dele seja utilizado para melhorar a vida de quem deveria estar entre os alvos principais das melhorias obtidas, pelo menos quanto ao tempo de que dispõe para folgas.

O debate, que já acontece e tende a se consolidar com o começo de tramitação na proposta na Câmara, havendo previsão do próprio presidente Hugo Mota de que a votação final aconteça até maio, torna-se ainda mais importante quando comparado àquele que acontece na vizinha Argentina, hoje dirigida por um político de extrema-direita, o liberal Javier Milei. O Senado argentino acaba de aprovar, com 42 votos favoráveis e 30 contrários, um projeto que vai numa linha exatamente contrária. 

Em resumo, o texto encaminhado pelo governo e que passou com relativa facilidade no primeiro teste no Congresso - ainda vai à Câmara -, a despeito do ambiente de confronto nas ruas que detonou, amplia, lá, a jornada de trabalho para 12 horas diárias (hoje são 8), além de, dentre outras coisas, facilitar demissões, reduzir em 50% o salário nos casos de afastamento por licença médica, permitir o uso de vales refeição e alimentação como vencimentos e outras medidas nessa linha. Conforme a versão de quem defende as mudanças, inclusive no Brasil, tudo em nome de uma "modernização" da lei trabalhista local.

Milei costuma ser citado como referência pelos políticos de direita e extrema direita do Brasil e por setores do meio empresarial e, geralmente, aponta o que tem feito como exemplo que poderíamos seguir. Quando a gente compara os dois países pela realidade objetiva que apresentam hoje, a partir dos indicadores oficiais de lá e de cá, pode ser que se esteja vislumbrando um futuro que não está à vista de nós, mortais comuns. Nem em perspectiva.

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