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Psicoterapeuta sistêmico com especialização em Psicologia Transpessoal e Psicoterapia Somática Integrada. Viveu na Índia onde se aprofundou em diversas abordagens terapêuticas e de meditação. Fez cursos e supervisão em Constelação Familiar com Bert e Sophie Hellinger e foi o introdutor da Constelação no Ceará; Ashara atende individualmente e ministra cursos de formação em Constelação em diversas cidades do Brasil. Veja mais: www.ashara.com.br

Guilherme Ashara comportamento

Transformando feridas em felicidade

Os traumas gerados na infância acompanham toda a a vida adulta, até o momento em que se toma a decisão de enfrentá-los e transformar acontecimentos tristes em alegria
Tipo Análise
Traumas da infância só parecem ficar escondidas, mas são elas que definem o padrão das nossas emoções (Foto: mike hindle/unsplash)
Foto: mike hindle/unsplash Traumas da infância só parecem ficar escondidas, mas são elas que definem o padrão das nossas emoções

 

Veja esses exemplos abaixo e perceba aqueles com os quais você mais se identifica.

Uma criança está no útero da mãe e de repente sente um medo profundo ou um pânico. Ela não sabe, mas o pai dela está agredindo a sua mãe. Como você acha que essa criança recebe esse choque?

Uma outra criança tem um ano de idade e está sendo amamentada no colo da mãe , ela faz xixi e o xixi vaza na roupa da mãe, que se preparava para sair com o marido. Sentindo que a criança havia molhado sua roupa, a mãe reage bruscamente gritando com a criança e colocando-a no chão.

E, uma outra criança de três anos brincava na sala com uma bola que acabara de ganhar e quebra um jarro precioso da mãe. A mãe berra loucamente que ela não deveria ter feito isso e chora tentando juntar as partes quebradas do jarro.

 

"Então, no nosso processo de cura e integração de nossas feridas temos que compreender que aquilo que carregamos não é o que somos e nem que isso tem que ser assim. " Guilherme Ashara, terapeuta

 

Uma outra de quatro anos se desespera quando vê os pais brigando por causa de algo que a criança fez e se culpa quando o pai querido sai de casa para nunca mais voltar.

E mais uma outra de cinco anos brincava feliz na garupa da bicicleta do irmão mais velho quando inadvertidamente coloca o dedão na corrente da bicicleta cortando a ponta do dedo e a unha. O pai quando viu essa criança berrando de dor e vê o ocorrido, pega o irmão pelo braço e lhe dá uma tremenda surra na frente da criança que não para de chorar e, depois, prende o irmão em um quarto como castigo.

Como você acha que se sente cada uma dessas crianças? Que situação mais o abala ou choca emocionalmente? Você lembra de alguma situação traumática na sua primeira infância; ou tem dificuldade de lembrar?

Esses exemplos que dei são situações bem comuns que se repetem nos meus 36 anos de atendimento terapêutico. O exemplo da criança de cinco anos, por sinal, é meu próprio.

Por experiência e paralelamente através de muito estudo e grupos de terapia, afirmo hoje que nenhuma dessas feridas emocionais desaparecem simplesmente por serem esquecidas. Esses traumas ficam marcados e nos acompanham pelo resto de nossas vidas.

São depositados no nosso inconsciente e quando acionados ou engatilhados através de um fato novo na adolescência ou na fase adulta, como por exemplo, uma separação abrupta ou uma perda de um ente querido, essas cargas emocionais submergem e são revividas com a mesma intensidade emocional que a criança viveu. Em outras palavras, nossas vidas são comandadas por nossas cargas emocionais.

Aquela expressão “o que os olhos não veem, o coração não sente” não funciona nessa situação. Não adianta você tentar esconder ou esquecer aquela ferida da infância pra que ela não seja sentida. Ela vai aguardar um momento novo ou um fato marcante para ressurgir com o mesmo potencial de sofrimento, abalo ou desorientação.

O psicoterapeuta norte-americano Krishnananda em seu livro "O amor não é um jogo de criança" descreve: “No meu livro anterior eu afirmei que um profundo mergulho nas feridas da criança interior era o caminho para despertar o amor em nossas vidas - o amor por nós mesmos e pelos outros. Passei muitos anos explorando feridas interiores em espaços que estavam esquecidos e enterrados. E descobri que, se essas feridas não se tornassem conscientes, sabotariam minha vida e meu amor de todas as maneiras.”

 

"Precisamos entender que essas feridas são condicionamentos que carregamos e que por alguma razão faziam sentido na nossa infância."

 

Krishnananda continua explicando que o primeiro passo a ser dado para alcançar essa cura é compreender que todos nós reprimimos feridas internas e temos a necessidade de conscientemente nos permitir olhá-las e senti-las para que elas possam ser transformadas em um sentimento positivo, integrado. E ele complementa que o segundo passo é perceber que estamos identificados com essas feridas. Achamos que é assim que devemos viver.

Então, no nosso processo de cura e integração de nossas feridas temos que compreender que aquilo que carregamos não é o que somos e nem que isso tem que ser assim. Precisamos entender que essas feridas são condicionamentos que carregamos e que por alguma razão faziam sentido na nossa infância. O trauma, a ferida ajudou no nosso processo de sobrevivência, mas como adultos não precisamos mais carregá-los.

Aproveite e olhe um pouco pra si mesmo(a) agora. Respire fundo e sinta: você está pronto(a) para curar e integrar ou simplesmente entregar a sua carga emocional? O que lhe impede de dar esse passo? O que você acha que perderia se curasse a sua ferida? Talvez poder, atenção, afeto?!

Medite um pouco sobre a sua criança interior e continue nos acompanhando semanalmente para receber mais dicas de como transformar as suas feridas em energia vital, prazer, amor e felicidade. Se desejar comente, pergunte e deixe o seu like.

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