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Psicoterapeuta sistêmico com especialização em Psicologia Transpessoal e Psicoterapia Somática Integrada. Viveu na Índia onde se aprofundou em diversas abordagens terapêuticas e de meditação. Fez cursos e supervisão em Constelação Familiar com Bert e Sophie Hellinger e foi o introdutor da Constelação no Ceará; Ashara atende individualmente e ministra cursos de formação em Constelação em diversas cidades do Brasil. Veja mais: www.ashara.com.br

Guilherme Ashara comportamento

União e separação de casais em meio à pandemia

O amor infantil só sabe pedir amor, o amor adulto, consciente, compartilha amor. O receber é somente uma consequência.
Tipo Análise
O amor e suas rotas incompreensíveis  (Foto: Anastasia Sklyar/Unsplash)
Foto: Anastasia Sklyar/Unsplash O amor e suas rotas incompreensíveis

Estar passando pelo processo de atravessar a pandemia do Covid-19 como casal não está sendo uma tarefa fácil. Eu e minha mulher tivemos que nos reinventar de muitas formas, mas parece que, depois de mais de um ano de muitos aprendizados, o estresse emocional está diminuindo e estamos nos sentindo mais fortalecidos.

Para vivermos em harmonia, ‘nosso truque’ como casal foi experimentar dois movimentos aparentemente antagônicos: o estar junto e o estar separado. Mas como fazer isso? E qual a origem dessas duas necessidades? Isso é o que vou descrever neste artigo.

Para começar, vamos imaginar um bebê no útero da mãe, ele não sabe diferenciar quem é ele de quem é a mãe. Ele está totalmente ligado à mãe. Mesmo depois de meses o bebê ainda não tem a percepção de distância da mãe. Eles continuam unidos física, energética e emocionalmente.

Estudos com recém-nascidos revelaram que no primeiro mês o bebê começa a observar rostos e reconhece os pais; e a partir do terceiro mês o bebê começa a fixar o olhar em objetos, descobre as mãos e reconhece a fala do principal cuidador.

Esse estudo pode nos mostrar que o processo de separatividade que resulta no reconhecimento de si mesmo é gradual e acontece, de acordo com minha experiência e meus estudos na área da Psicologia Transpessoal, durante toda a nossa vida. Você, por acaso, já ouviu falar de ‘bebês’ de 30 anos que ainda estão vivendo no colo da mãe? Eu já vi muitos casos!

Em um relacionamento adulto, acontecem dois movimentos essenciais - a união e a separação. Quando nos unimos em uma relação, temos o desejo e a ilusão de que a união é o que há de melhor para nós, e concluímos que isso precisa ser pra sempre. Porém, notamos que existe um sentimento interno que clama pela separação, que sente que permanecer junto é sufocante.

E isso não necessariamente quer dizer terminar a relação ou acabar o casamento. Mas quer dizer que ambos precisam de momentos de separatividade, de espaço na relação, quer dizer que ambos precisam ‘respirar’.

Precisamos entender que a ‘respiração’ de um relacionamento é ficar junto (inspiração) e ficar separado (expiração). Imagine que você fica mais de cinco minutos prendendo os pulmões cheios de ar. O que acontece? Em poucos minutos você vai começar a ficar sufocado e vai ter que expirar. Isso é comparativamente igual a você beijar alguém por um dia, ou ficar em um quarto trancado com seu companheiro por um mês inteiro. É possível que você aguente como desafio, mas fazer disso o seu padrão de relacionamento, certamente seria bem sufocante.

 

"Quando nos unimos em uma relação, temos o desejo e a ilusão de que a união é o que há de melhor para nós, e concluímos que isso precisa ser pra sempre. Porém, notamos que existe um sentimento interno que clama pela separação, que sente que permanecer junto é sufocante." Guilherme Ashara, terapeuta holístico

 

O problema principal dos relacionamentos é a ideia de que precisamos ficar juntos até que a morte nos separe. E de onde vem essa ideia? Do útero! Lembra da minha explanação acima? Pois é, a vida uterina nos faz acreditar que viver em união é o melhor pra nós. Lá vivemos os momentos mais conectados da nossa existência. Lá nos sentíamos unificados com o outro. Essa é talvez a experiência do mais puro e profundo amor que um ser humano pode experimentar. Daí vivemos uma vida tentando reconstruir esse mesmo ambiente uterino.

Porém a natureza com sua sabedoria, nos diz que precisamos sair desse paraíso. Precisamos nos separar e aprender a viver também sós. Temos que crescer e construir nossa própria vida. Esse é o ciclo natural do ser humano.

Alguns místicos e estudiosos da consciência humana chegam a dizer que a nossa busca pela união, e mais profundamente pela dissolução no outro ou ainda mais profundamente nosso anseio pela iluminação, vem da nossa experiência no útero. Lá nos sentíamos completos e unificados, lá vivíamos em perfeita comunhão com a existência, com Deus.

 

" Aos poucos, ao invés de depender do amor do outro, você será um doador. E o verdadeiro amor somente acontece quando você se torna capaz de dar amor."

 

Mas o problema é que não tínhamos consciência disso. Então começamos novamente, fora do útero, a trilhar de forma consciente o caminho que nos levará à ‘perfeita’ comunhão. E o primeiro passo é encontrar um amor terreno, de carne e osso, pra termos o primeiro vislumbre do amor.

Se essa relação nos permitir ‘respirar’, podemos dar um segundo passo que é descobrir esse amor dentro de nós mesmos. Daí o outro se transforma num parceiro que vai nos ajudar a trilhar essa jornada rumo ao preenchimento, à satisfação plena, ao amor.

Experimente essa meditação: sempre que se sentir amado(a) feche os olhos e perceba o amor dentro de você. Ele está no seu sentimento e na sua sensação corporal. E quanto mais você praticar, mais o seu corpo e seu coração vão ficando preenchidos de amor. Aos poucos, ao invés de depender do amor do outro, você será um doador. E o verdadeiro amor somente acontece quando você se torna capaz de dar amor.

O amor infantil só sabe pedir amor, o amor adulto, consciente, compartilha amor. O receber é somente uma consequência.

Namastê!

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