Advogado, pós-graduado em Processo Penal e mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza (Unifor). É professor do Centro Universitário Estácio/Ceará e da Universidade Sete de Setembro (Uni7). Fundador do escritório Hélio Leitão e Pragmácio Advogados
A prisão custou a Nise da Silveira a perda do emprego público adquirido por concurso, só vindo a ser reintegrada em 1944, quando passa a trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro
Foto: Acervo Museu Imagens do Inconsciente/Reprodução
Alagoana Nise da Silveira expandiu a arteterapia como tratamento psiquiátrico
Tinha sido apresentado à figura da psiquiatra brasileira Nise da Silveira, confesso, há apenas alguns anos, através de leituras esparsas. Vi ainda o excelente "Nise - O coração da Loucura", filme em que a atriz Glória Pires, no papel principal, dá um banho de interpretação. Não muito mais. Um sábado destes de janeiro voltei à personagem, indo a uma exposição sobre sua vida e obra na Caixa Cultural, aqui mesmo, na nossa Fortaleza. Imperdível.
Alagoana de Maceió, foi a única mulher, de uma turma de 157 alunos, a graduar-se pela Faculdade de Medicina da Bahia, que frequentou nos anos 1921 a 1926. Especializa-se em psiquiatria. Durante o período Vargas é presa em razão de denúncia de uma enfermeira do hospital em que trabalhava. A moça viu em sua mesa, entre livros de medicina, arte e literatura, um tanto de doutrina marxista, que também estudava. Amargou um ano e meio de prisão pela ousadia, cumprido no presídio da rua Frei Caneca, de tantas histórias. Conviveu ali, entre outros, com Olga Benário Prestes, Elisa Berger, Maria Werneck de Castro e Graciliano Ramos, com a fina flor da intelectualidade de esquerda, muitos protagonistas e simpatizantes do malogrado Levante Comunista de 1935.
A prisão custou-lhe a perda do emprego público adquirido por concurso, só vindo a ser reintegrada em 1944, quando passa a trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro. Ali deu-se o ponto de inflexão de sua carreira. Confrontada com brutais e já consolidadas práticas médicas aplicadas a pacientes com transtornos mentais como a lobotomia e o eletrochoque, passa a adotar métodos desprezados pela medicina tradicional.
Emprega a arte, a pintura e a modelagem como ferramentas terapêuticas. Com grande sucesso e não sem provocar o desprezo e a descrença de muitos de seus colegas. Cria no ano 1952 o Museu de Imagens do Inconsciente, assim preservando os trabalhos de seus pacientes. Sua obra chama a atenção de ninguém menos que o suíço Carl Gustav Jung, o pai da psicologia analítica, com quem passou a se corresponder e trocar informações e experiências.
Não é demais ter Nise como a precursora da humanização do tratamento psiquiátrico neste país, em que há um trágico passivo histórico de violências contra pacientes com distúrbios mentais.
Nise da Silveira morre no Rio de Janeiro em 1999, aos 94 anos. Em 2022, seu nome foi inscrito no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, em projeto de iniciativa da deputada federal Jandira Feghali. Ressalte-se que houve veto do então presidente da república à iniciativa, logo derrubado pelo Congresso Nacional. Tenha Bolsonaro querido ou não, Nise da Silveira é heroína nacional.
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