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Cai a máscara
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Hélio Leitão

Cai a máscara

Ao contrário das outras vezes, os Estados Unidos não tiveram sequer a preocupação de forjar um pretexto para lustrar o ataque à Venezuela e tentar conquistar alguma legitimidade internacional à agressão
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Hélio Leitão

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Desde sua independência, proclamada com pompa e circunstância aos 04 de julho de 1776, os Estados Unidos da América perpetraram quase 400 intervenções militares ao redor do planeta, maior parte das quais desde os anos 1950 para cá. Não entram nessa conta intervenções de cariz político e econômico, um tanto mais disfarçadas e sutis, como a que se deu quando da derrubada do presidente constitucional do Chile, Salvador Allende, em 1973.

Os EUA tudo fizeram então para sabotar a economia do país e criar uma ambiência social e política que culminou com o golpe militar que sepultou o sonho da chamada "via democrática ao socialismo ou via chilena". O cineasta Patricio Gúzman dirigiu um excelente documentário, na verdade uma trilogia, sobre aqueles tempos: "A Batalha do Chile". Disponível no YouTube. Recomendo. É ver para crer.

A vocação imperialista estadunidense não é novidade para quem acompanha minimamente a história e os movimentos da geopolítica. A recente invasão da Venezuela e o sequestro político de Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores seria apenas um outro episódio nesse longo e variado rosário de intervenções. Desta vez, há algo de bem mais podre no reino do Tio Sam, como poderia dizer outra vez Marcelo, personagem em Hamlet, obra imortal do também imortal William Shakespeare. O astuto guarda palaciano pressagiava o crime e a corrupção moral que se abateria sobre o reino da Dinamarca...

A defesa da democracia, dos direitos humanos e a guerra às drogas foram motivos recorrentemente invocados para justificar as intervenções. Posando de defensores da democracia, da segurança mundial e dos direitos fundamentais, ideais nobilíssimos, força é convir, os EUA desempenhavam orgulhosos o papel de polícia do mundo. Assim acreditavam escamotear os interesses econômicos e políticos por detrás de suas intervenções.

O que chama a atenção no caso venezuelano é a desfaçatez, a sem-cerimônia, a absoluta falta de pudor com que agora se houveram. Ao contrário das outras vezes, não tiveram sequer a preocupação de forjar um pretexto para lustrar o ataque e tentar conquistar alguma legitimidade internacional à agressão.

Sem meias palavras, Donald Trump deixa claro que sempre esteve de olho, isto sim, no petróleo venezuelano, e que age em defesa dos interesses das empresas petrolíferas americanas com atuação naquele país. Não por acaso deixou intactas as estruturas e esquemas políticos do chavismo. A ele pouco importa o regime político ali vigente e as condições de vida daquela gente. Mandou às favas os postulados mais elementares do direito internacional e do multilateralismo. Vale a lei do mais forte. Agora tudo é possível.

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