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Henrique Araújo é jornalista e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Articulista e cronista do O POVO, escreve às quartas e sextas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades e editor-adjunto de Política.

Bolsonaro leva apoiadores às ruas, mas sai mais isolado do 7 de setembro

De resultado prático, portanto, Bolsonaro colhe pouco neste 7 de setembro. Se a intenção era parecer mais forte, deu-se o contrário. Agora, líderes de partidos, que não cogitavam impeachment, começam a fazê-lo
Tipo Análise
(Goiânia - GO, 28/08/2021) Presidente da República Jair Bolsonaro no encontro com Lideranças do Estado de Goiás.
Foto: Alan Santos/PR (Foto: Alan Santos/PR)
Foto: Alan Santos/PR (Goiânia - GO, 28/08/2021) Presidente da República Jair Bolsonaro no encontro com Lideranças do Estado de Goiás. Foto: Alan Santos/PR

 O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cumpriu parcialmente o que havia prometido semanas atrás: dar uma demonstração de força nas ruas, de modo que se sentisse autorizado a emparedar os poderes da República – leia-se Supremo Tribunal Federal.

O que se viu nesta terça-feira, 7 de setembro, nem é prova cabal de sobrevida do chefe do Executivo, tampouco um contingente que se possa ignorar. Estatisticamente, corresponde à fração, algo entre 25% e 30%, que ainda o apoia, segundo pesquisas de intenção de voto.

Se o que Bolsonaro queria então era uma foto, essa foto tem muitos ângulos: aqueles que o favorecem e os que não o favorecem.

A importância da data está, porém, menos na matemática e mais na política. Especificamente, no jogo de alianças dentro do Congresso e num cenário cujo céu já era carregado antes dos atos de hoje.

Juntas, as duas falas do presidente, em Brasília e em São Paulo, cumprem um roteiro sortido pela lei dos crimes de responsabilidade. Se fosse um bingo, Bolsonaro teria marcado todos os pontos nesta terça.

Nada do que disse é propriamente novidade. O novo está na gradação. Bolsonaro aumentou o sarrafo do golpismo. Ao endereçar seus ataques nomeadamente a Alexandre de Moraes e ao afirmar que não cumprirá decisões do ministro, o que equivale a dizer que não cumprirá decisões do Supremo, o presidente se colocou acima das leis.

Bolsonaro quer-se além do alcance da Constituição. O presidente imagina habitar esse lugar onde as regras não limitem seus atos, como é de praxe em qualquer democracia. Como não consegue, e as ações do STF apontam que não, restam espernear e convocar sua base para encurralar e sequestrar a República.

Moraes é o inimigo da vez. Já foram Renan Calheiros, relator da CPI da Covid, e o também ministro Luis Roberto Barroso, presidente do TSE. E amanhã será outro.

Porque não interessam a batalha nem os adversários, mas que haja guerra permanente. Bolsonaro vive numa arena de gladiadores. Seu vocabulário é bélico, e seus termos se situam sempre nesse campo. Daí o ultimato dado em Brasília a milhares de manifestantes.

A despeito da gritaria e desses ataques, o presidente mostra-se acuado, nos gestos e nas declarações, atravessadas por medo. A frequência com que se refere à possibilidade de que seja preso só prova o quanto as investigações, contra si e os filhos, o preocupam, principalmente que tenham como desfecho a prisão.

Por isso a radicalização, a escalada de hostilidades e assédio e a necessidade sistemática de eleger alvos e reposicioná-los tão logo se esgotem. Foi assim com Barroso e o tal do voto impresso, enterrado, mas presença fantasmática nos atos deste feriado.

De resultado prático, portanto, Bolsonaro colhe pouco neste 7 de setembro. Se a intenção era parecer mais forte, deu-se o contrário. Agora, líderes de partidos, que não cogitavam impeachment, começam a fazê-lo.

A hipótese de remoção do presidente continua remota? Sem dúvida. Mas menos que ontem. Ao mesmo tempo, Arthur Lira (PP-AL) fica menos confortável na cadeira, de onde controla as dezenas de pedidos de impeachment.

Do mesmo modo, a relação com o STF, que já era ruim, deteriora-se de vez, o que só serve para desautorizar ainda mais o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), que chegou ao Planalto apresentando as credenciais de “amortecedor” do presidente.

Nogueira é um dos líderes do centrão, fiel da balança de qualquer processo de afastamento. Difícil imaginá-lo saltando do barco antes de 2022. Talvez não tanto quanto imaginá-lo afundando junto com o governo Bolsonaro.

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