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Henrique Araújo é jornalista e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Articulista e cronista do O POVO, escreve às quartas e sextas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades e editor-adjunto de Política.

Mania de pulseira

Tipo Crônica

Os cearenses têm muitas manias, algumas boas e outras ruins. Entre as boas está a de andar arrastando a chinela, hábito que produz um conforto porque me faz lembrar de minha vó tangendo galinha no terreiro de casa.

E há as manias não tão boas. Cito uma apenas: a da pulseira. Mas não qualquer pulseira, de tira de pano ou de Michelin, de um artesão conhecido ou comprada no camelô para regular as energias do corpo.

Falo da pulseira VIP, essa confeccionada em cores berrantes, quase sempre amarelo, verde ou azul, que se destacam ao longe, adornando pulsos delgados, de coloração branca, com pelos sedosos ou abrasados por um fim de semana na praia (mas não qualquer praia, uma praia mais afastada, com ares primitivos e comunidades de pescadores que aceitam Pix).

Quem usa a pulseira VIP quer dizer que foi a algum lugar aonde só os que a portavam podiam entrar, ou seja, é um passe de entrada. Não uma senha vulgar ou coisa que o valha, mas objeto exibível e de valor sem o qual aquele mundo mágico estará distante, vedado ao reles cidadão na base da pirâmide de renda.

Gostamos de pulseira como os gaúchos de chimarrão, os baianos de acarajé e os cariocas de praia. É uma marca, por assim dizer, um traço que confere diferenciação às tribos. E basta ver uma pulseira para ter certeza: ali vai alguém que tem o privilégio de poder andar com uma pulseira dessas.

No shopping, na padaria ou mesmo num restaurante, porque esses são lugares aonde se vai para exibir a pulseira, não porque exijam o adereço para o acesso, mas porque, apenas lá, o usuário terá oportunidade de fazer ver o acessório, que, noutro canto, passaria em branco. Ali, e talvez apenas ali, a pulseira tem esse sentido hipervalorizado, que todos reconhecem e reparam mas fingem não ver, num jogo de espelhos.

Porque o uso da pulseira requer uma dupla cumplicidade, quase um desleixo teatralizado: quem a carrega simula tê-la esquecido no braço e quem a vê faz de conta que se trata de qualquer detalhe, de mera coisa, como um relógio ou outra quinquilharia que se dependura nos membros a fim de embelezá-lo.

O sentido de portá-la se encerra no seu ato. Usar a pulseira se destina a destacar quem a emprega, para variados fins, no mais das vezes os de segurança, mas principalmente o de segregar, assegurando que apenas os de posse do bem transitem por determinado território, que se divide em mais territórios, criando uma espiral de privilégios a que corresponde uma multiplicidade de gradações de pulseiras.

Há VIP simples, a VIP esmeralda e a VIP diamante. E, quando as referências cromáticas mais comuns se esgotam, vêm a VIP platinum e a VIP gold, que equivale a qualquer coisa indescritível.

Daí as muitas cores, cada uma com seu significado e simbologia, que se tornam moeda de disputa nos eventos e ambientes de uma cidade como a nossa, habituada a cercadinhos e áreas exclusivas, fetiches de um morador/consumidor que não tolera o péssimo gosto de dividir espaços com o comum e, mesmo num réveillon, calha de fincar suas estaquinhas e demarcar seus limites na areia da praia.

Assim é o cearense, que, entre outras manias, escolheu a da pulseira.

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