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Henrique Araújo é jornalista e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Articulista e cronista do O POVO, escreve às quartas e sextas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades e editor-adjunto de Política.

Bolsonaro cria Brasil paralelo em discurso na ONU

O chefe da nação repetiu bobajadas e mentiras que costuma espalhar no cercadinho do Planalto, espaço destinado aos que são cativos desse universo paralelo criado pelo presidente.
Tipo Análise
O presidente Jair Bolsonaro em um discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU (Foto: Reprodução/Twitter)
Foto: Reprodução/Twitter O presidente Jair Bolsonaro em um discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU

Em 12 minutos de discurso na assembleia-geral da ONU, Jair Bolsonaro atacou a imprensa, mentiu sobre a preservação ambiental, negou casos de corrupção, defendeu indiretamente o marco temporal, reafirmou o tratamento precoce (que não existe) e admitiu que não se vacinou.

Em suma, o chefe da nação repetiu bobajadas e mentiras que costuma espalhar no cercadinho do Alvorada, que, como o próprio nome indica, é espaço destinado aos que são cativos desse universo paralelo criado pelo presidente.

Bolsonaro não tinha tantas opções na ONU: ou tentava usar o palco internacional para se recuperar da péssima impressão deixada pelo despropósito de sua conduta durante a pandemia. Ou aprofundava a crise em que se meteu, endereçando suas falas a uma franja radicalizada que ainda o apoia. Preferiu a segunda alternativa.

Entre discursar para muitos ou poucos, escolheu a minoria. Como resultado, isola-se ainda mais e faz picadinho da carta de intenções assinada por ele e elaborada por seu ghost-writer, Michel Temer.

No teor, foi um discurso sem novidades, mera repetição daquele de 2019, mas com agravante de que o mundo passa ainda por uma pandemia e a crise climática está na ordem do dia na ONU. É um pout pourri dos temas do presidente na cartela de bingo ideológica. Um conjunto de frases apanhadas nos seus grupos de Zap e organizadas para que façam algum sentido.

Bolsonaro não vê diferença entre o púlpito da ONU e um carro de som na avenida Paulista. Tanto num como no outro, sente-se à vontade para mentir.

Não importa que não haja tratamento inicial, que a inflação esteja galopando e que a CPI tenha identificado irregularidades nas compras de vacina. Tampouco que ele mesmo seja investigado em inquéritos no STF.

Interessa reportar-se aos seus, na sua gramática já conhecida e tortuosa, mas, para certo público, eficaz.
Como tem feito sempre, o presidente procura assegurar-se de que tem essa base sem a qual talvez já tivesse sido afastado do cargo. A intenção é constantemente reforçá-la.

Na ONU não foi diferente. Se havia expectativa dentro do Itamaraty de que moderasse discurso, ela foi enterrada logo no primeiro minuto, quando o presidente prometeu que apresentaria um Brasil diferente daquele dos jornais e da televisão.

No tempo que lhe coube, Bolsonaro inventou o seu próprio país, que existe apenas na cabeça do capitão da reserva – e talvez nem lá.

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