Henrique Araújo é jornalista e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com mestrado em Sociologia (UFC) e em Literatura Comparada (UFC). Cronista do O POVO, escreve às quartas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades, editor-adjunto de Política e repórter especial. Mantém uma coluna sobre bastidores da política publicada às segundas, quintas e sextas-feiras.
Está aí uma frase que sempre me intrigou - "Vai desculpando qualquer coisa". Minha tia costuma falar quando lhe faço uma visita, ao fim da qual, depois de comer bolo e tomar café, sapeca com um misto de vergonha e orgulho: desculpa qualquer coisa, meu filho.
Mas desculpar o quê? O café ou o bolo? Ou será que a tia se refere a alguma nódoa familiar que ainda desconheço, um crime muito grave até hoje mantido em segredo por todos e do qual eu devesse saber algo, mas continuo ignorante?
Não sei.
Cacoete linguístico, o "desculpa qualquer coisa" tem alcance maior, porém, a ponto de resumir a vida doméstica de qualquer família cearense: ao acioná-lo, é como se uma pessoa se confessasse e seus pecados como anfitrião, reais ou imaginários, estivessem expurgados.
É, ao mesmo tempo, um pedido de desculpas por tudo e por nada, presente e futuro, que retroage aos últimos fatos, mas também avança no tempo e abarca a série de coisas que ainda podem acontecer - daí o "vai desculpando qualquer coisa".
Como um passe-livre pra errar, é mais utilizado, ironicamente, quando se tem certeza de que nada faltou - o café estava bom e o bolo, uma maravilha. É um jeito, portanto, de expressar a falsa-modéstia, já que sugere que, apesar de ter feito o melhor, algo poderia ter sido aprimorado, embora não se saiba o quê.
Por isso a desculpa não por isto ou por aquilo, mas por qualquer coisa. Qualquer coisa, aí, não é evidentemente tudo, mas algo que talvez tenha escapado ao domínio, ao controle, ao planejado, enfim, o contingente, o detalhe.
Cartão de visitas familiar, a frase arremata qualquer conversa, dos vizinhos ao parente distante. É a senha de um tipo de hospitalidade desconfiada, típica do cearense, cuja base é um bem-querer com prazo de validade - fulano é praticamente de casa, mas nunca se sabe. Vai que resolve sair falando mal.
Melhor não apostar, já que tudo que o nativo mais teme na vida é se tornar alvo de um falatório, ainda que ele mesmo seja um praticante contumaz dessa nobre arte cultivada com esmero na terrinha: a fofoca.
Nessa hipótese, quem usa a frase está na verdade se antecipando às más línguas, essas mesmas que, depois de uma visita na qual foram bem acolhidas, ainda são capazes de sair por aí a "maldar" a vida alheia.
Por essas e outras, quando lhes pedirem pra ir desculpando qualquer coisa, perguntem logo: de que coisa estamos falando? Antes a certeza da culpa, a qual se oferece a desculpa, do que o cheque em branco pra todo o sempre.
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