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Mandetta cai; o problema continua
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Henrique Araújo é jornalista e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Articulista e cronista do O POVO, escreve às quartas e sextas-feiras no jornal. Foi editor-chefe de Cultura, editor-adjunto de Cidades e editor-adjunto de Política.

Mandetta cai; o problema continua

A novela no Ministério da Saúde parece ter acabado, mas o impasse continua
Tipo Análise
"Eu vou tomar aquela que estiver disponível para mim", afirma o ex-ministro (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil "Eu vou tomar aquela que estiver disponível para mim", afirma o ex-ministro

Mesmo com Henrique Mandetta fora após ter sido demitido pelo presidente da República, persiste a tentativa de Jair Bolsonaro de relaxar a quarentena e retomar as atividades em meio à explosão de casos de covid-19 no Brasil.

Ou seja, continua presente o núcleo de ideias controversas (há quem chame de desatinos) que o chefe do Executivo apresenta como saída para a crise de saúde em que o país está metido há mais de um mês.

Em tom monocórdio, sem que se saiba ao certo se lia ou improvisava, Bolsonaro revisitou um mantra: defendeu a vida, mas declarou que a volta à normalidade é fundamental para a manutenção dos empregos.

No pronunciamento, salvo engano, faltou apenas a cloroquina, cantada em prosa e verso no Planalto, ainda que sem estudos conclusivos sobre a sua eficácia contra a patologia.

De passagem, o presidente atirou nos alvos costumeiros: governadores, prefeitos e imprensa, personagens a quem tenta culpar pelas perdas econômicas na esteira da pandemia.

Disse que, antes do coronavírus, o Brasil estava voando. Não falou, porém, que a altura desse voo de galinha era de 1,1%, índice do PIB no primeiro trimestre de 2020.

Em resumo, Bolsonaro entregou um cartão de visitas para Nelson Teich, que não poderá dizer que não sabe onde está pisando.

Ele sabe, e é exatamente isso que preocupa. Bolsonaro não precisa de ciência; o ministro, sim.

A crer nas palavras iniciais do substituto de Mandetta, a política de combate ao novo coronavírus não mudará. Torçamos para que não.

Mas essas mesmas palavras também incluem um “alinhamento total com o presidente”.

Ora, ou Teich está alinhado com a técnica ou com Bolsonaro - a ambos, ao mesmo tempo, é impossível.

Logo, é possível supor que o pior não tenha passado, e a troca de comando no Ministério da Saúde pressagie um problema maior.

Qual?

Um de natureza agora não apenas sanitária, mas também política, que arraste o país para o olho de uma tempestade mais que perfeita.

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