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Estagiária e colunista de futebol feminino e pautas raciais do Esportes do O POVO. Estudante de Jornalismo no Centro Universitário Sete de Setembro (UNI7), já passou por assessorias de imprensa e foi repórter colaborativa da plataforma de notícias VAVEL Brasil

Iara Costa esportes

Quantas Rayssas e Martas a gente deixou passar?

Colunista fala sobre a falta de incentivo dentro e fora de casa enfrentada por meninas em diferentes modalidades esportivas
Tipo Opinião
Rayssa Leal exibe medalha de prata (Foto: Jeff PACHOUD / AFP)
Foto: Jeff PACHOUD / AFP Rayssa Leal exibe medalha de prata

Era uma vez. Assim começa todo belo conto de fadas que conhecemos na infância. Na vida real, sabemos que não é assim que a vida começa para nós, nem como os sonhos se iniciam. Eu lembro que tinha 12 anos a menos de idade quando comecei a sonhar em ser jornalista esportiva, mas não me recordo quando foi o "era uma vez" da minha história com o esporte. O que eu lembro dos meus primeiros momentos com o futebol e com o jornalismo foi de receber desestímulo.

"Isso não é coisa para mulher", "não vai dar certo", eram as menores das frases que eu escutava na época. Essa não é uma realidade somente minha. Você, mulher, que lê essa coluna, sabe que existe um sonho lá no fundo do seu coração que já foi silenciado, e você, homem leitor, deve conhecer alguma mulher que passou por isso, mesmo que você não saiba. Nós, mulheres, somos constantemente incentivadas a fazer somente o que está na receita, caso contrário, somos taxadas de tudo e um pouco mais. No mundo do esporte, essa negação ao sonho aparece de diversas maneiras: dos pais que acham que é "coisa pra homem" e dos clubes, das marcas e do estado, que muitas vezes não dão o amparo necessário. 

Por que estou falando nisso? Porque Rayssa Leal, ao ganhar uma medalha de prata aos 13 anos, me fez pensar nisso. "O que você estava fazendo aos 13 anos?", perguntou a internet ao ver a garota maranhense com a medalha no pescoço nessa faixa etária. Eu respondo: toda mulher nessa idade estava sonhando. Sonhando em ser médica, professora, jogadora de futebol, mãe, dona de casa. O problema é que, com o tempo, as pessoas e a falta de oportunidade minaram muitos desses objetivos.

Não foi o meu caso, pois sou teimosa, lutei e sei que tive sorte, mas Rayssa me fez pensar em quantas mulheres foram o caso. Quantas mulheres já desistiram de jogar bola pela falta de estímulo? Quantas Martas e Rayssas estão em casa ou no trabalho nesse momento e nunca vamos conhecer porque, entre sonhar e colocar comida no prato, elas preferiram ter o que comer?

Óbvio, temos de olhar para o outro lado da moeda, agradecer por conhecê-las e por elas darem a possibilidade de outras mulheres sonharem. Mas isso não inibe o meu pensamento sobre quantas delas já deixamos passar pela negligência que existe com o sonho de mulheres.  

Sempre que falo em futebol feminino nesse espaço, eu costumo falar sobre falta de patrocínio exatamente por conta desse sentimento. Tenho medo de saber quantas Martas e quantas Rayssas cearenses deixaram de surgir por falta de estímulo dos pais, dos clubes, das marcas e dos governos. 

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