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Estagiária e colunista de futebol feminino e pautas raciais do Esportes do O POVO. Estudante de Jornalismo no Centro Universitário Sete de Setembro (UNI7), já passou por assessorias de imprensa e foi repórter colaborativa da plataforma de notícias VAVEL Brasil

Iara Costa esportes

O valor da mulher no futebol brasileiro

Afastamento de Rogério Caboclo da CBF por "conduta inapropriada" e "calote" do Avaí junto ao Kindermann mostram a forma como as instituições do futebol tratam as mulheres
Tipo Opinião
Kindermann corre risco de não participar da Taça Libertadores Feminina 2021 por problemas com repasse envolvendo o Avaí.  (Foto: Leandro Boeira/ Avaí FC)
Foto: Leandro Boeira/ Avaí FC Kindermann corre risco de não participar da Taça Libertadores Feminina 2021 por problemas com repasse envolvendo o Avaí.

Acompanho o futebol brasileiro há mais de uma década e, de lá para cá, vi o número de mulheres crescer em diversos âmbitos: no campo, nas arquibancadas e no dia a dia dos clubes. Olhar para aquele passado me faz sorrir. Afinal, se antes eu me sentia um pouco solitária nesse universo, hoje já não tenho mais essa sensação.

Recentes acontecimentos me fazem questionar, entretanto, se ocupar esses espaços é ou não o suficiente. A resposta é bem simples: não é o bastante. Embora nós, mulheres, estejamos ocupando cada vez mais lugares, ainda somos pouco valorizadas dentro deles. Estar no espaço do futebol não é o bastante se eu, ou qualquer outra minoria, ainda não me sentir confortável ou pertencente a ele. 

Falo isso por dois acontecimentos que ganharam os noticiários nos últimos dias: o caso de assédio envolvendo o presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo, e o descaso financeiro envolvendo o Avaí com a equipe do Kindermann.

Quando julgado pela Comissão de Ética da maior entidade do futebol brasileiro, Caboclo foi penalizado por "conduta inapropriada", sendo as denúncias não qualificadas como assédio sexual e moral. Além disso, no último final de semana, o ex-mandatário conseguiu fazer um acordo com o Ministério Público Federal para arquivar o processo e pagar R$ 100 mil, valor que deve ser doado a ONGs de combate à violência contra a mulher e de defesa dos animais. A informação é do Globo Esporte. 

Como uma mulher que já foi abusada, eu considero um deboche o fato de duas denúncias acabarem apenas em um afastamento, que mais ocorreu por politicagem do que por justiça, e R$ 100 mil. É isso que a mulher vale dentro da CBF? De que adianta termos mais mulheres nos estádios se, na hora da luta, é somente esse o nosso valor?

É como se fôssemos vistas somente como números, enfeites ou uma obrigação. Neste último, talvez o Avaí até se identifique. Em 2019, a CBF obrigou que os times da Série A tivessem um elenco feminino. À época na primeira divisão, a equipe de Santa Catarina firmou parceria com um grande time do futebol feminino brasileiro, a Associação Esportiva Kindermann. O time passou a jogar com o nome Avaí/Kindermann e, em troca disso, o Leão da Ilha repassaria R$ 50 mil por mês ao time do Caçador.

De acordo com matéria divulgada pelo TNT Sports, o Avaí não repassa essa verba há cinco meses. Isso atrapalhou totalmente os planos do time da cidade de Caçador. Vice-campeão do Brasileirão do ano passado e escalado para participar da próxima edição da Libertadores Feminina, a equipe corre o risco de fechar as portas. Tudo isso porque o clube parceiro não está honrando com seus compromissos.

Como o futebol feminino brasileiro irá avançar se as equipes não dão a ele o devido valor? Como eu, mulher, vou ser respeitada nesse meio, se sou vista apenas como um número e há poucas ou quase nenhuma de nós fazendo desses espaços nossos? Precisamos cobrar posições dos nossos times e entender que precisamos fazer parte dessa estrutura. Só assim começaremos a ter um valor nesse meio. Se continuar como está hoje, seremos somente mais um número aleatório na lista de sócio-torcedores e apenas mais uma massa de manobra para cumprir obrigações impostas pela CBF. Como mulher, sei que somos e valemos muito mais do que isso.  

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