Jornalista e colunista de futebol feminino do Esportes do O POVO. Graduada em Jornalismo no Centro Universitário Sete de Setembro (Uni7). Já passou por assessorias de imprensa e foi repórter colaborativa da plataforma de notícias VAVEL Brasil
Jornalista e colunista de futebol feminino do Esportes do O POVO. Graduada em Jornalismo no Centro Universitário Sete de Setembro (Uni7). Já passou por assessorias de imprensa e foi repórter colaborativa da plataforma de notícias VAVEL Brasil
Há um livro das jornalistas cearenses Karol Tavares e Beatriz Carvalho chamado "Passa a Bola pra Elas" no qual, em 128 páginas, as duas autoras abordam a participação feminina na gestão. Na obra, há detalhes sobre as dificuldades de ser mulher no meio do futebol e, tal qual na vida de um modo geral em nossa sociedade patriarcal, de ocupar espaços de gestão nesse meio.
Cito esse livro neste espaço hoje porque ele facilmente poderia substituir minhas palavras ao comentar sobre o lançamento da Copa do Mundo Feminina neste final de semana, no Rio de Janeiro (RJ). Na própria imagem divulgada pelo Governo Federal há cinco homens "líderes" do futebol e do país: o presidente Lula, o técnico do time masculino (?) Carlo Ancelotti, o presidente da CBF Samir Xaud, o presidente da CBF Gianni Infantino e o ministro do Esporte André Fufuca. Poderia questionar por qual motivo há apenas homens, mas a resposta para tal raso questionamento seria superficial frente ao que a imagem mostra: a mulher ainda não ocupa todos os cargos possíveis no futebol.
Em um ano de 2026, véspera da competição, será que não é sintomático que não tenhamos nenhuma mulher ocupando esses grandes cargos? Claro, é sempre bom pontuar a importância do espaço dado a mulher até aqui. Em 2010, quando eu comecei a ir a estádios com afinco, a quantidade de damas em uma partida de futebol era muito menor do que hoje, quando ocupamos arquibancadas, campo e tribuna. Mas ainda não chegamos lá.
Perceber isso não é um ataque individual a nenhum dos nomes que aparecem na foto, tampouco uma tentativa de apagar avanços concretos já conquistados. É, antes, um convite à leitura estrutural do cenário. Quando o principal produto do futebol feminino mundial é apresentado por uma mesa exclusivamente masculina, a mensagem simbólica é clara: as mulheres ainda são protagonistas apenas dentro das quatro linhas. Fora delas — onde se decide orçamento, calendário, estratégia e legado — o comando segue concentrado em mãos masculinas, reproduzindo uma lógica histórica que o próprio futebol feminino diz querer romper.
A Copa do Mundo de 2027 no Brasil tem potencial para ser um marco, não só esportivo, mas político e social. Contudo, para que isso se concretize, é preciso que o discurso de valorização venha acompanhado de prática cotidiana, especialmente na ocupação de cargos de poder. O futebol feminino não pode ser apenas vitrine; precisa ser também bastidor. Enquanto mulheres seguirem sendo maioria nas arquibancadas e minoria nas mesas de decisão, imagens como a do lançamento do Mundial seguirão sendo menos um retrato do futuro e mais um espelho incômodo do presente.
Futebol e as ressonâncias do ser mulher no mundo esportivo. Sem estereótipo. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.