Inquieta, porém calma. Isabel Costa, a Bel, é mediadora de leituras, jornalista e professora. Realiza ações no âmbito da leitura, desde 2016, em Fortaleza e na Região Metropolitana. É especialista em Literatura e Semiótica pela Uece. Autora dos livros Pitaya e das obras experimentais Vitamina D, Querida Anne e Retalhos. Aos domingos, quinzenalmente, é possível ler as crônicas da Bel no Vida&Arte, caderno do O POVO
Isabel Costa: "É por isso que acordo diariamente com o sol no rosto; não tenho onde sentar à noite para assistir televisão; e tomo banho frio todas as manhãs"
Foto: JANSEN LUCAS
Ilustração de Jansen Lucas para crônica de Isabel Costa
Passei um ano inteiro protelando ações importantes e pagando o preço pela ausência de reação. Meu quarto não tem cortina; minha sala não tem sofá; e meu chuveiro elétrico é um conta-gotas. Doze meses inteiros e optei por escantear as resoluções simples que, convenhamos, seriam elucidadas em apenas um dia.
É por isso que acordo diariamente com o sol no rosto; não tenho onde sentar à noite para assistir televisão; e tomo banho frio todas as manhãs. Na hora que a água gelada bate na bunda, eu me esculacho mentalmente: "Porra, Isabel Costa, mas você não tem jeito mesmo".
Não haveria problema em retardar as ações se as consequências não fossem diárias. Felizmente, apenas eu - e as minhas poucas visitas - lidamos com os danos de acordar cedo e tomar banho frio. Ingênua, tento me convencer de que é até bom para espantar a preguiça.
Mas essas pequenas coisas estão começando a me incomodar de uma maneira substancial. Há um momento no qual é preciso fazer tudo aquilo que está pendente. Parece um estalo: ajustar as gavetas, procurar os documentos, trocar a lâmpada, marcar consultas, limpar a geladeira, comprar móveis e eletrodomésticos.
Eu não conseguiria explicar as motivações de tanto tempo para resolver coisas tão diminutas. Com exceção do sofá - que vai precisar de planejamento financeiro ou de um bom cartão de crédito - consigo resolver as outras demandas com dois cliques e duas ligações. Comprar na internet, chamar alguém pra instalar.
Afinal, tenho mais experiência em mudança de casa do que gostaria de admitir. É contraditório, pois, até os 21 anos, morei na mesma casa - e é onde meus pais residem até hoje, em Cascavel. Atingida a maioridade, fui ter a pior experiência possível de moradia: uma kitnet dividida com uma colega da faculdade. Dormia em um colchão ralo no chão e, todas as noites, rezava para Deus me proteger dos sonhos maus e das baratas.
Depois, fui para um lugar "só meu" - mas a experiência acabou em uma porta arrombada e um notebook furtado. Por meses, tinha pesadelos de que alguém estava invadindo a casa. Nova mudança e cheguei até o bairro mais providencial de Fortaleza: Bom Futuro. Pequeno e esquecido - mas sempre nos lembrando de que os próximos passos são melhores do que os atuais.
Mais uma mudança e voltei a morar em Cascavel - onde fiquei por cinco longos e lindos anos. Depois, muda novamente - encaixotando sonhos, louças e plantas para habitar um novo apartamento - este, com muita segurança, sem colegas de faculdade inóspitas e com vista para o mar. Precisei comprar móveis, pintar paredes, ligar para a companhia de energia elétrica e resolver um milhão de burocracias da vida adulta em todas essas movimentações. Talvez por isso, esteja tão reticente em resolver a cortina, o sofá e o chuveiro?
No fim, preciso admitir para mim mesma que gosto um tanto desse movimento de "casa inacabada". Morar sozinha é uma construção diária. Vou fazendo e desfazendo os cômodos até encontrar o caminho viável - entretanto, vai ser possível apenas naquele instante. Depois, é preciso buscar novas rotas de moradia. Falando assim, parece tudo complexo, mas é exatamente isso que sinto, no fim da noite, quando abro a cadeira de praia em plena sala e coloco um filme para rodar.
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