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Um texto para Cecília Meireles
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Inquieta, porém calma. Isabel Costa, a Bel, é mediadora de leituras, jornalista e professora. Realiza ações no âmbito da leitura, desde 2016, em Fortaleza e na Região Metropolitana. É especialista em Literatura e Semiótica pela Uece. Autora dos livros Pitaya e das obras experimentais Vitamina D, Querida Anne e Retalhos. Aos domingos, quinzenalmente, é possível ler as crônicas da Bel no Vida&Arte, caderno do O POVO

Um texto para Cecília Meireles

Isabel Costa: "Eu quero passar o fim de semana em casa, usando pijamas, deitada vendo filme na televisão de 14 polegadas enquanto mastigo um balde de pipoca amanteigada pacientemente"
Tipo Crônica
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Cecília Meireles, sem data. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. (Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã)
Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã Cecília Meireles, sem data. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.

Eu quero acordar super cedinho, por volta das 5h50min, abrir as cortinas do quarto e olhar Fortaleza amanhecendo através da minha janela favorita - mas também quero acordar às 10 horas com os olhos inchados e o cabelo desgrenhado pensando apenas em uma xícara de café.

Eu quero almoçar um prato de salada gigante com muita rúcula, chicória, croutons e um molho de sabor agridoce que vai fazer as minhas papilas gustativas saltarem - mas eu quero também um hambúrguer pleno de queijo cheddar e doritos.

Eu quero passar o fim de semana em casa, usando pijamas, deitada vendo filme na televisão de 14 polegadas enquanto mastigo um balde de pipoca amanteigada pacientemente - mas eu também quero virar a noite em uma festa, dançar, dar um giro, rodopiar no salão e, como diz o meu amigo Clóvis Holanda, fazer um "frente banda".

Eu quero ler 24 livros no mesmo ano, assistir 24 peças de teatro, ver 12 filmes no cinema e mais 12 filmes em casa; participar de um clube de leitura e também de um cineclube; aprender a fazer minha própria maquiagem e contratar alguém pra fazer isso por mim quando der vontade ou preguiça; quero fazer longos treinos na academia - prometi 150 para 2026 - mas também quero ficar horas deitada no sofá vendo o globo girar.

Quero aprender coisas que eu ainda não sei: nadar em alto mar, dar estrelinha, abrir garrafas com os dentes, andar de bicicleta, pilotar e correr (o descompromisso na aula de educação física no ensino médio cobrou um preço bastante alto). Mas também quero fazer as coisinhas que já sei e amo: digitar velozmente, faxinar o apartamento com música alta, escrever crônicas, dar aulas e mais altas, colorir livros com canetinhas.

Cecília Meireles (1901-1964), artista brasileira que ajuda a nomear esse texto, tem um livro que, desde a infância, é um dos meus favoritos: "Ou Isto Ou Aquilo". Publicada em 1964, mesmo ano da morte da autora, a obra fala sobre o peso das escolhas diárias feitas na infância. Sempre me encantou a forma como Cecília mescla musicalidade e lúdico. "Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo". Quando eu lia isso, achava que uma escolha anularia a outra. Mas a vida não é tão P&B assim e, com o tempo, fui capaz de entender melhor as entrelinhas do texto da escritora carioca.

Hoje, eu quero tudo e quero demais. Queria querer menos, ser mais coadjuvante, ser menos protagonista de mim mesma e não escutar as minhas vontades. Na real, eu queria não ser tão intensa. Precisa dessa energia em tudo? Precisa mesmo dessa postura de centralidade da própria vida? Precisa viver cada momento como a celebração da existência humana exacerbada?

Citando novamente o Clóvis Holanda: precisa sim! E é necessário viver cada alegria da vida ao extremo - cada festa, cada livro, cada amanhecer, cada calmaria, cada treino, cada passeio - pois, quando o mundo resolve bater, ele não economiza ninguém. Ele dá logo uma surra. E das pancadas da vida ninguém está imune. As tristezas chegam com força para nos despedaçar, então, vamos viver as alegrias, sim.

 

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