Inquieta, porém calma. Isabel Costa, a Bel, é mediadora de leituras, jornalista e professora. Realiza ações no âmbito da leitura, desde 2016, em Fortaleza e na Região Metropolitana. É especialista em Literatura e Semiótica pela Uece. Autora dos livros Pitaya e das obras experimentais Vitamina D, Querida Anne e Retalhos. Aos domingos, quinzenalmente, é possível ler as crônicas da Bel no Vida&Arte, caderno do O POVO
Isabel Costa: "Eu queria controlar o incontrolável. "Queria" é um verbo conjugado no pretérito imperfeito do indicativo. "Incontrolável" é a minha irmã, Ana Cleide"
Foto: Samuel Setubal
Foto meramente ilustrativa para crônica de Isabel Costa (Foto: Samuel Setubal/ O Povo)
Eu queria controlar o incontrolável. "Queria" é um verbo conjugado no pretérito imperfeito do indicativo. "Incontrolável" é a minha irmã, Ana Cleide. O meu desejo mais sublime é controlar aquela menina. Mas é impossível. Não dá. Ela já não é mais tão "menina". Em 27 de março, vai chegar à marca dos 26 anos. É uma mulher. Alta, loira, com ensino superior e, desde sempre, absurdamente incontrolável. Um furacão.
Acreditem, desde o ano 2000, quando ela nasceu - logo depois da ameaça do bug do milênio - tento controlar essa criatura, mas falhei tentativa após tentativa. Quando bebê, ela não gostava de usar enfeites na cabeça. As mãozinhas agarravam as tiaras, os tic-tacs, os lacinhos… Eu queria ter uma irmã fofinha, mas ganhei uma chorona, que desistiu do peito da mamãe antes dos seis meses e passava o dia inteiro reclamando atenção.
Mais tarde, na infância, ela era tudo aquilo que eu nunca quis ser. Levava a vida com os joelhos ralados de tantas quedas ao andar de bicicleta - algo que eu nunca fiz. Não perdia uma oportunidade de colocar a si mesma em risco. Uma escada perto da mangueira do quintal? Virou atalho para, aos cinco anos, Ana subir no ponto mais alto da árvore. Eu, desesperada, gritando lá embaixo: "Desce aqui".
No ensino médio - quando eu sonhava com uma formação bilíngue e um intercâmbio para Malta - ela optou por passar três anos em uma escola profissionalizante do Estado. "Só vantagens", dizia. "Dão almoço, livros e fardas. Passo o dia na escola com as minhas amigas. E ainda tem estágio remunerado no fim", falava, contrariando o plano perfeito que eu idealizei. O problema é que eu esqueci de combinar com a protagonista da história!
A verdade é que demorei pra entender que a Ana não é uma extensão de mim. Ela é outro ser humano: autônomo, seguro de si e cheio de vontades. Na faculdade, escolheu a instituição e o curso que eu mais abominava. Não é proposital, não é como se ela quisesse me contrariar. Ela só está sendo… ela! Prefiro lidar com alguém que atende às próprias vontades do que ter uma irmã que se anula em função alheia. Apesar de, muitas vezes, eu querer esganar a Ana Cleide.
No TikTok, ela viu uma trend falando que pessoas que fizeram tatuagens iguais vão se encontrar na próxima encarnação. Fudeu pra gente. Não temos apenas uma, mas duas tatoos gêmeas. A primeira é a rubrica da Lia, nossa mãe que morreu em 2011, e a segunda é um beija-flor, homenagem para a Lene, nossa mãe que tem 71 anos. Juntas, nós temos duas mães divididas em igual medida - uma morta e outra viva. Mas essa história é para eu contar depois. Eu não vou aguentar mais duas encarnações ao lado da Ana Cleide… mal tô tolerando essa sem perder o réu primário.
A nossa querela recente tem nome e sobrenome: Uber Moto. Fazendo os cálculos, é mais vantajoso circular de motinha do que pegar ônibus em Fortaleza. O preço da passagem - R$ 5,40 - chega a ser imoral com o trabalhador. Por isso, minha linda irmã - criada no leite de pera e com mochila Kipling - sobe na garupa de desconhecidos. Eu fico louca! Já vi tantos feridos no corredor do Instituto Doutor José Frota (IJF) que adquiri um verdadeiro pânico pela possibilidade da minha irmã virar estatística: "Além do risco da queda, você pode pegar piolho", foi a melhor argumentação que consegui.
Também no TikTok, outro dia, Ana Cleide me encaminhou uma trend com a pergunta: "Você é mais da sua mãe ou do seu pai?". A resposta é resolutiva: "Da minha irmã, eu sou mais da minha irmã".
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