É editor digital de Política do O POVO e apresentador do programa Jogo Político, interessado no mundo do poder, seus bastidores e reflexos sobre a sociedade. Entende a política como algo que precisa ser incorporado e discutido por todos. Já foi repórter de Política e também editor da rádio O POVO CBN.
Nenhum fato terá mais impacto na política local do que a possível candidatura de Ciro Gomes (PDT) ao Governo do Estado. A começar pelo próprio currículo do ainda pedetista: ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro e quatro vezes candidato a presidente da República. A última empreitada no campo nacional, inclusive, jogou Ciro para um nível de irrelevância abissal, causando forte decepção e a promessa de aposentadoria das disputas eleitorais.
Pesquisas internas, entretanto, reativaram o ânimo do ex-presidenciável. Sem espaço para crescer na esquerda, Ciro Gomes se aproxima do bolsonarismo em um movimento arriscado e, de forma até surpreendente, é abrigado por um setor que até bem pouco tempo o via como inimigo. A rejeição, claro, não surgiu do nada: Ciro foi ministro no primeiro governo Lula, tem ideias que se chocam frontalmente com o pensamento da direita - tanto a ala mais moderada, como a extremista - e coleciona embates com nomes que até ontem eram adversários.
Um dos casos mais emblemáticos envolve o ex-deputado federal Capitão Wagner (União), líder de um motim em 2012 que mudou os rumos da Segurança Pública no Estado. A avaliação é do próprio Ciro Gomes, que associou o aumento nos índices de violência no Ceará à atuação de Wagner junto aos policiais militares. "O que é o marco que inverte essa tendência, de queda profunda (nos homicídios), para crescimento explosivo? O motim do Capitão Wagner", disse Ciro em fevereiro de 2022, pouco antes de romper com o então governador Camilo Santana (PT).
Aqui não vou nem citar os variados ataques e xingamentos do pedetista contra o ex-parlamentar, alguns indo parar na Justiça com direito a indenizações. Me refiro à visão que Ciro tem de uma das áreas mais sensíveis do Estado, com facções dominando territórios e ditando regras - e que terá protagonismo na disputa de 2026. Se a culpa de tudo isso é de Capitão Wagner, como explicar essa nova parceria para o eleitorado? Vai ser dessa união que a solução para o problema vai surgir? De que forma convencer a maioria da sociedade que a "argamassa" dessa aliança não é muito mais formada por rancor e oportunismo do que pela vontade de ajudar o povo?
Ciro já admitiu que, do ponto de vista nacional, há diferenças "incontornáveis", mas que olhando apenas para o Ceará, existiriam "convergências". Confesso que não consigo enxergá-las. O que observo são contradições difíceis de serem superadas e que podem fragilizar uma eventual vantagem em relação ao governador Elmano de Freitas (PT). O recall de Ciro é enorme, ele sabe se comunicar bem melhor que o petista, os partidos que lhe darão sustentação devem garantir muitos recursos e tempo de TV, mas isso não é suficiente para garantir a vitória. Manter a coerência pode ser mais importante do que tudo isso.
Sem falar no aspecto emocional/familiar: Ciro deverá ficar contra o irmão Cid Gomes, que já deixou claro que não há a mínima possibilidade de compor o novo conglomerado de centro-direita. Nas redes sociais, já há estranhamento sobre essa configuração política: "Ciro do lado de quem liderou motim e quase matou o próprio irmão com um tiro", disse um internauta em postagem do O POVO no Instagram, em referência ao episódio da retroescavadeira em Sobral, em 2020. Se já há reações do tipo a mais de um ano das eleições, imagine com a campanha de fato nas ruas.
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