É editor digital de Política do O POVO e apresentador do programa Jogo Político, interessado no mundo do poder, seus bastidores e reflexos sobre a sociedade. Entende a política como algo que precisa ser incorporado e discutido por todos. Já foi repórter de Política e também editor da rádio O POVO CBN.
As mortes de palestinos provocadas pelo Estado de Israel são mais ou menos absurdas do que as causadas pelo Irã ou pela Venezuela contra sua própria população? Do ponto de vista dos direitos humanos, não há diferença. Uma vida tem o mesmo valor aqui ou na China, e cabe às autoridades constituídas fazer de tudo para preservá-las, e não o contrário. Entretanto, quando elementos ideológicos e econômicos atravessam questões como essa, tudo fica mais volátil e as reações passam a ser moldadas por conveniências. As certezas desaparecem, cedendo lugar a malabarismos discursivos desconectados da realidade.
O massacre contra a Faixa de Gaza, com o assassinato brutal de civis, incluindo crianças, foi duramente criticado pelo governo Lula, por meio de discursos em vários espaços, inclusive na ONU, e notas de repúdio assinadas pelo próprio presidente. Atitude correta diante dos inúmeros crimes de guerra cometidos por Netanyahu sob o aval ou a complacência dos Estados Unidos.
O mesmo não se vê diante de outros conflitos. A minúscula, tardia e vergonhosamente protocolar nota do Itamaraty sobre a crise iraniana após os protestos duramente reprimidos pelo regime dos aiatolás é mais uma amostra da dificuldade que o governo Lula tem de repudiar posturas abomináveis quando praticadas por governos ideologicamente próximos. Foi assim em relação à Venezuela e à Rússia, e agora se repete com o governo de Ali Khamenei. Lamentam-se as mortes como se fossem resultado de um desastre natural, sem uma vírgula sequer de reprimenda aos autores da carnificina.
Em nova indireta a Donald Trump, o governo petista afirma que “cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país”, parecendo não enxergar que o anseio soberano por mais liberdade e melhores condições de vida está sendo solapado por tiros e bombas. Pede-se ainda que todos os atores se engajem em “diálogo pacífico, substantivo e construtivo”. Parece até piada. Como dialogar pacificamente com quem usa a violência extrema como instrumento de poder? É a normalização da barbárie sob o disfarce do pragmatismo diplomático.
Aqui ninguém defende que o Ministério das Relações Exteriores declare guerra ao Irã, mas que dê a dimensão correta à gravidade do que vem sendo feito pela Guarda Revolucionária Iraniana. Imagens que conseguiram furar o bloqueio comunicacional imposto pela teocracia islâmica expõem a repressão violenta às revoltas.
Claro que essa não é uma falha restrita à esquerda. A direita também age de forma seletiva ao fechar os olhos para atrocidades cometidas por governos com os quais mantém afinidade política. Acontece que os direitos humanos são uma bandeira histórica do campo progressista, que deveria manter coerência independentemente do alinhamento ideológico. Não há Brics nem relação comercial que justifique posicionamentos medíocres diante de execuções sumárias e prisões arbitrárias.
São contradições que cobram seu preço, corroem a credibilidade internacional e desgastam figuras que ganharam destaque pela defesa de valores humanos universais, mas que, diante de episódios cruciais, preferem fingir que estão em Nárnia. Um prato cheio para a oposição. Lembrando que as eleições vêm aí!
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