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Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.

izabel-gurgel • NOTÍCIA

Uma escuta da saudade

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Severino Silva de Sousa, o Virino, corta a madeira até ver surgir São Jorge a cavalo e o Dragão sob seu domínio. Resulta de tal modo que parece nascido e não feito. A gente dá voltas, arrodeando o entalhador sentado à banca e a fúria ali tão concreta como um tacho no fogo. É para ver melhor o acontecimento. A bem dizer, os dois. A peleja do santo-cavalo-dragão e a do Virino. Nascido em 1969, a 20 de dezembro, conta 33 anos de ofício no Centro de Cultura Popular Mestre Noza, em Juazeiro do Norte. Começou dando acabamento em peça. "O artesão é um espelho para o outro", diz.

Na Serra da Rajada, Caucaia subindo no meio de Tucunduba, chegamos um dia para trabalhar mais cedo do que o marcado e, bodega aberta, entramos. Entramos como quem quer café e conversa. O café primeiro. Elenir Silva, dona do comércio, ficou só esperando o manifestar da nossa admiração. Tinindo de bom, parecia passeio novo, abrindo veredas no gosto acostumado da bebida. "Que café é esse?", dizíamos sem dizer. Repetindo uma vez e outra mais, e dando voltas nos guardados dos sentidos para saber melhor cheiro e sabor e efeito do combinado no surgir do domingo. Sim, ainda se distinguia domingo dos outros dias da semana.

Aqui é preciso ser breve ao contar os anos muitos abrigados no café donzelo. É o primeiro café da safra, da torra. Ela colhia com o avô, botava pra secar. Finda a torra - falei que seria breve -, a mãe e avó Francisca Rodrigues pilava com cravo. "Eu nasci assim", brinca de Gabriela a Elenir. Agora é a vácuo, café industrializado. "Boto quatro cravos na garrafa."

Um domingo desses, cedinho, ouvi Marilena Chauí. Aula nos arquivos digitais da Casa do Saber. Para evitar derivas - você sabe, elas são concretas -, a professora e seu texto escrito. Em encontro anterior, ela explicou, a fala chegou às 11 da noite e ainda havia tanto a dizer. No escrito da professora, feito a gente no entorno do Virino, dançam Gilda de Mello e Souza (o livro é "O Espírito das Roupas") e Clarice. O trecho Clarice? Sobre os limites da linguagem. Teve uma hora que a professora contou de uma avó sua, de luto, a cobrir de tecido preto brincos e colar.

Como se faz um luto? O texto de hoje seria sobre luto, o luto em curso para cada um e todos nós. O luto pelas mortes. E o luto provocado pela matança. Somos criaturas esculpidas, também, pelas perdas. O que se retira. Às vezes, sem tempo de despedida. Sem um café partilhado. Se interessar, a aula da professora é "Afinal, o que pensam as mulheres?".

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