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Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.

Izabel Gurgel arte e cultura

Olho da rua

Icó, 19 de março, 2015, procissão de São José. A única que passa pela rua do Meio, a dos escravizados. Ando na rua do Senhor do Bonfim, cor demais nas janelas enfeitadas para ver passar o Santo, o único levado no ombro e não no carro-andor. Dizer vermelho é pouco. Digo bordô, vermelho-papoula, do sagrado coração de Jesus Maria José; nome do mar bíblico aberto pela fé; cor maçã-do-amor, papel de seda embalando beijo, papel-crepom, celofane das prendas do leilão; vermelho balão, bandeirinha e fogueira de São João; cor do ponto de doce de banana, goiaba, jambo quase vinho; cor de crista de galo e guelras de peixe; das fitas e opalas da irmandade do Santíssimo Sacramento; cor encarnada: vermelho da língua das criaturas humanas.

A tarde se finda, derrama-se no Rio Salgado, embrenha-se na terra; a noite chega como vinda das serras, dos altos, dos céus, mas é da terra que ela vem. Levanta-se. Tudo que há, da terra vem. Acende-se a luz do andor. São José e o menino Jesus sorriem.

O jardim de flores naturais do andor resplandece, parece suspenso, a deslizar pelas ruas. A imagem parece pairar e o milagre está nos ombros que a carregam, vão ali todos juntos, revezando-se, o ombro de um se prolongando no ombro do outro, uns moços, uns velhos, relicários se dando a honra de sustentar o que nos sustenta.

Há um desejo de luz nas criaturas, nas suas ruas, nas suas casas. As janelas são altares no meio do caminho, abertas para alargar o espaço do sagrado. O Santo passa e tem a visão das casas todas. (Ir)radiância, lastro de brilho, caminhos acesos como de jardins que se bifurcam à luz da lua, trilha iluminada como por vagalumes, a acender e a apagar em intermitência: está aceso, clareou, brilha, refulge, foi.

É luz de chama de vela, às vezes uma só na tigela branca de louça virada na janela, feito serra em miniatura; às vezes duas velas, o castiçal é única peça guardada da casa da avó, um branco já andado no tempo, assim um branco longínquo, silencioso, oferecendo vermelho e verde em flor e ramagem e um fio e outro de dourado, uma luz de outrora. O castiçal tem lugar para três velas, mas só tem duas. A que falta, quem sabe, a lembrar das ausências, de quem não veio, de quem não mais, do que não se sabe.

Tem a luz de lanternas embutidas na base aos pés do Santo, ou na auréola, chama permanente. Tem daquelas que acendem e apagam como as linhas traçadas na estrada dizendo pode ultrapassar, regulando o fluxo. Luz vinda da sala, réstias de luz do quarto, do corredor, do abajur estampado de paisagem de neve, Torre Eiffel e outras geografias que viajam como viajaram a indiada, o gado, os homens do São Francisco, a chegar, a sair, a riscar o Icó que viria a ser.

É quase maio e invoco São José marceneiro, as sabedorias do pensar com as mãos. O mundo é feito a mão, como a aplicação da vacina. E esse texto de desespero mudo.

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