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Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.

Izabel Gurgel arte e cultura

A linha dos olhos do artista

Sérvulo Esmeraldo (1927-2017) sabia de cor a linha mestra do desenho e relevo do Cariri onde nasceu. Ele conta:

"Lembro de cor o traçado da linha do horizonte

que envolvia o meu universo quando criança...

Sobretudo de como ele era belo.

No poente ele aparecia próximo às encostas da Chapada do Araripe...

No nascente, despontava a Serra de São Pedro...

Não se via o Crato, e sim o Juazeiro e, ao longo do Vale [do Cariri],

até onde a vista alcançava, via-se o Morro Dourado (Missão Velha).

Estas linhas sou capaz de redesenhá-las ainda hoje."

O lugar vive na gente é o mote da na série Cidade Portátil. Já falei dela por aqui, não? Do gosto de prestar atenção, fui fazendo da observação e apreciação um apanhado dos achados comuns, no sentido de bens públicos. São acervos imateriais e físicos. Pela graça de dividir - "olha que festejo bonito faz Icó ser o destino da nossa presença ou pensamento todo primeiro de janeiro, cinco horas da tarde" -, pois pela graça de dividir, fazemos encontros de partilha da Cidade Portátil.

Vi, apreciei a maioria dos bens indo aqui e ali, em migrações reais e imaginárias. Sérvulo, que vem do anfiteatro da Chapada do Araripe, como diz Gilmar de Carvalho (1949-2021), é ele próprio uma espécie de olho d´água em nosso gosto por andar no mundo. Sua obra pública em Fortaleza, constituem dos um dos acervos compartilhados sob a placa Cidade Portátil.

Digo que Sérvulo nos convida, sempre, a prestar atenção. Uma vez, a trabalho, a gente se encontrou quase ao acaso em Curitiba. Um casal amigo do casal Dodora Guimarães e Sérvulo cuidavam do artista viajando sozinho. Uma noite, o marido o convidou para jantar e Sérvulo me levou junto. Era daqueles endereços que só habitantes conhecem. E olhe lá. Voltas e voltas, e nada de encontrar o lugar da comida supimpa. Desculpava-se e, entre ansioso e constrangido por não chegar lá, dizia do difícil que era ler as placas das ruas colocadas no alto das edificações e não à altura da risca dos olhos. Feito menino aboletado na brincadeira, bem aprumado à janela, Sérvulo se deliciava com o que não conhecíamos. Dizia e repetia, calmo como o ritmo da rua naquela hora da noite: "Não se preocupe, o passeio está muito bom. Adoro prestar atenção".

O artista assim uma escola, ensino-aprendizagem do olhar e ver, da afinação dos sentidos. Um mestre da e na brincadeira de descobrir, inventar mundos. Um incorporado saber, feito a linha da Chapada do Araripe, que ele trazia de cor, digo de coração e coragem, como a poeta Cora ao escolher e honrar seu pseudônimo.

Se o jardim dos olhos do artista guarda a linha-mestra do relevo de onde começou a experimentar o mundo, guarda, de fato, uma vibrante documentação da vida na Terra, da vida da Terra. É o desenho do Crato no mundo, do mundo no Crato, um dos seis municípios cujos territórios fazem o GeoPark Araripe. Pois é o mote do Festival Sérvulo Esmeraldo agora em setembro: o Crato no mundo.

Pra gente prestar atenção aos brasis. E fora genocidas. A gente quer é saber de viver. E bem viver.

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