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Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.

Izabel Gurgel arte e cultura

Olhos livres

Tipo Crônica

Planalto, distrito de Arneiroz, Sertão dos Inhamuns, Ceará, cearás. Em julho, na festa da padroeira Senhora Santana se celebra também Santa Marciana. Sem registro oficial no panteão de mártires e santidades da Igreja Católica, em torno de Marciana, o Planalto se fez, a vida se faz. Anos depois de ter ido lá, a memória me devolve um retângulo de piçarra em torno do qual talvez pouco mais de uma centena de casas resuma o lugar, belo absurdo de céu.

O grupo de teatro Plarc - Planalto, Arte e Cultura encena ano após anos "A Vida de Santa Marciana". Em 2005-2006, quando ouvi falar sobre, cerca de quarenta pessoas estavam diretamente envolvidas na peça. Cem casas e quarenta pessoas fazendo teatro. Arquivei o Planalto na minha escala de exageros como uma "Grécia no sertão". O teatro mobiliza o mundo inteiro do Planalto, dá sentido à vida do lugar onde bebês recebem os nomes Marciano e Marciana, como Cícero e Cícera, Francisco e Francisca nascem das bentas Juazeiro e Canindé.

A gruta-santuário é o Cruzeiro da Marciana, outrora uma estradinha. Ficam ali ex-votos trazidos por romeiros e habitantes. Ali, conta-se, acharam o corpo de Marciana depois de tanto malfazejo a mando dos seus donos. Ali, fez-se Santa, surgiu o Planalto.

Escravizada em uma fazenda, Brasil-século 19, Marciana se apaixonou por um escravizado, propriedade de outra família fazendeira. A senhora de Marciana, nos relatos com nome e sobrenome, de um tudo fez para impedir o namoro. Chegou a "piar" Marciana, como se faz com galinha para evitar que fuja. Em uma fuga para ver o namorado, deu-se a matança.

Brotam milagres, a fé na Santa cresce, vai além do Planalto. A carência de registros históricos sobre ela é um deserto mudo frente à força de vida que dela emana. À esquerda do altar da capela de Senhora Santana, tem um retrato de Santa Marciana. Um ouvinte arguto, entre tantos a quem contei a história, o dramaturgo Edilberto Mendes foi pesquisar o que, só de ouvi falar, me impressionou. Fez primorosa ficção no modo dissertação de mestrado, aprovada cum laude na UFC.

Peço confirmação do retrato e do lugar que ocupa na capela. Descrevo o visto na primeira viagem. Edilberto confirma. Conto que estou escrevendo sobre retrato e o da Santa se revelou tatuagem na memória. Explícito como uma estampa de calendário. Edilberto me conta a origem do retrato. Um galego, vendedor de porta em porta, fazia toda a área. Um dia, chegou com um retrato da Santa. Uma das primeiras moradoras do lugar, Dona Sinhá explicou que não existia imagem da Santa, todos sabiam, já haviam procurado e não existia. Em vão. Líder religiosa, teve que comprar. O retrato foi para a capela. O galego nunca mais passou lá.

Renovo o gosto por estampas de calendário a cada ida ao Centro de Fortaleza. Nunca vi outro retrato da Santa. Mas é descer a Floriano Peixoto no rumo dos Correios e acho que vou dar com os olhos em Marciana ali pela calçada do Casablanca. Por falar em retrato, é do projeto por um mundo mais medonho os pouco verdes e tão amarelos do último dia 7. Você também está em outra estampa, a do coro #foragenocida?

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