Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.
Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.
"Se essa rua, se essa rua fosse minha..."
A cantiga se materializa em miniaturas feitas a mão, as calçadas da Rua do Meio ganham cenas com personagens históricos que conheceram o século XIX, com viajantes do século XX.
Os detalhes das fachadas dizem da vontade de beleza. E a escala do tão pequeno convida a prestar atenção. Seria um livro em dobraduras e cortes, cada cena-acontecimento levantando-se do papel à medida que abrimos a publicação.
É um presépio ampliado em vários níveis no chão da casa do casal Branca e Cláudio Teixeira, com o casario da rua plana onde se encontra subindo a escada da sala principal, dando relevo e densidade à imaginação do dono da casa, à constelação de histórias que somos, prolongando do lado de dentro os jardins de calçada que pedestres treinados na observação do caminho podem vislumbrar na atual rua General Piragibe em Icó.
São pedrinhas de brilhante as dezenas de presépios em Icó, por vezes cultivados há décadas. No caso do Cláudio, que nasceu em dezembro de 1976, a contagem vai dar "no tempo do meu bisavô".
A cidade um dia vai se dar conta do acervo que tem, como um dia haverá de conspirar a favor do rio, mirando-se nele, e quem sabe desejar uma beira-rio. Desejando que prospere em diversidade e abundância as vidas do rio, no rio.
Bem antes de chegar à ponte e até bem depois da rua São Francisco, Icó de frente para o rio como um dia cidades à beira-mar pararam de dar as costas às praias. Tudo no espírito do presépio, a festejar o que nasce.
Lucinha, a Maria Lúcia, a Dadá segundo o irmão Luciano, nasceu na Rua do Meio, na casa que guarda uma joia dentre presépios centenários do mundo. O primo Cláudio conhece aquela fonte cristalina. É um "álbum de maravilhas" o que passa nos olhos das crianças que foram, que fomos. Como os mais férteis brinquedos, o presépio é um mundo encantado que o pensamento e a imaginação compõem em data marcada e visitações a tempos nos quais não estivemos e não estaremos presentes.
A casa onde nasceu Lucinha é a dos pais dela, Aldenora e Dedé (filho) de Tixa, a casa de Tixa casada com Mestre Déo. Dedé e Mestre Déo, senhores da excelência no trabalho com a madeira, uma experiência de construção do mundo com as mãos que Cláudio busca na lida com o papel e outros materiais, e o irmão dele, Roberto Valdery, por anos expressou no desenho e ornamentação do andor do Senhor do Bonfim.
Reparo. Demoro-me na caminhada em Icó, brincando de ema, pescoço esticado, alongando-o por janelas e portas e portões e muros e grades para ver as composições da vontade de beleza e gramática da fé de cada presépio. Tudo que nasce é sagrado.
Icó haverá de revelar Zé Tavares, mestre santeiro, encarnador de imagens, pai de Tixa, avô de Dedé, bisavô de Cláudio, Roberto, Maria Lúcia, Luciano, Liduina, dos gêmeos Márcio e Marciano, cuidadores da lapinha na capelinha da Matriz, na Rua do Meio que não para de dar asas à cidade.
A soma da Literatura, das histórias cotidianas e a paixão pela escrita. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.