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Barbalha, Ni de Souza, Mateu Babaçu
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Jornalista, leitora, professora. Criou e faz curadoria das séries A Cozinha do Tempo e Cidade Portátil, dentre outras atividades.

Barbalha, Ni de Souza, Mateu Babaçu

O palhaço do reisado que Ni nos oferece é uma realização de eras e almas de corpos dedicados a fazer do mundo um lugar melhor. Nem que seja por um instante
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Foto ilustrativa para crônica de Izabel Gurgel (Foto: Divulgação/Instituto Dragão do Mar)
Foto: Divulgação/Instituto Dragão do Mar Foto ilustrativa para crônica de Izabel Gurgel

- Niii, repete o i ao modo Cariri, habituada à surpresa que o nome suscita e a criatura já fisgada pelo riso dela. Você vai ver Ni quarta-feira? O ímã do riso está ligado desde o domingo.

Mateu Babaçu, a atriz Ni de Souza guarda mais do que o próprio trajeto no nome de batismo da figura cômica que performa como solista ou em grupo. Maria Irani é "a filha do meio" de Maria Nilza Silva de Sousa e Francisco Valdivino de Sousa, dentre quatro homens e duas mulheres. Nasceu a 26 de abril de 1968. O registro é datado de 1967. Não falei? Nega Ni chega antes.

Dos possíveis sentidos de Irani, sugestão de uma amiga dos pais, criadora de abelhas, ficamos com o de abelha furiosa, enfurecida, em língua de povos originários.

O palhaço do reisado que Ni nos oferece é uma realização de eras e almas de corpos dedicados a fazer do mundo um lugar melhor. Nem que seja por um instante. Virado pelo avesso. Tomado pela brincadeira, pelo gosto de ser besta, zelar e velar a bobagem. Rir não abre só as vias respiratórias. Desenha passagens no tempo.

Digo para Ni que cruzei com Pinga Fogo, ele a contar de si: "setenta e quatro anos de nascido, sessenta e nove de Mateu e vinte e cinco temperando rapadura", o tempo de serviço em engenho de cana. Pedi e Ni me contou outra vez a história dela, que virou a aula-espetáculo "De onde vem o meu Mateu".

Das fontes da Chapada do Araripe, Seu Epitácio e o rosário de festas, folias, folguedos são águas bentas para Ni. Compadre dos pais, "é o primeiro Mateu com quem tive contato". Tão presente quanto respeitado na família dela, reconhecido em sua sabedoria-modo de estar no mundo, o mestre octogenário segue atraindo a abelha. Tornam possível a polinização.

Ouvindo Seu Epitácio, ela se deu conta do compromisso dele com os futuros do brinquedo coletivo. Ele sentia escassear a aparição de novos Mateu.

Foi a bem dizer fogo tocando pólvora. A prática de iniciação teatral que Ni fazia em escola pública virou oficina para (re)descobrir o palhaço de rosto pintado de preto, língua solta, chapéu em forma de cone adornado de espelhos e fitas, a cafuringa que se alonga rumo ao céu feito babaçu em busca de sol.

Em 2000, na festa de carregamento do pau da bandeira de Santo Antônio, Ni cuidou da primeira ninhada de Mateu nas ruas. Em 2025, "quase cinquenta". Em Barbalha, o Grupo Mateu de Teatro dá cria todo ano.

Feito por homens no reisado, o ofício da abelha abriu passagem à consagração das mulheres brincando de Mateu.

Pandeirista, o pai temia pelos desafios que ela, como ele, teria como artista. Nascido no dia da criança, Seu Chico se encantou no Carnaval de 2023, aos 84 anos. A mãe vai fazer 81 dia 13 de maio. Como sempre nos dias de festa, desde quando era quebradeira de babaçu no sítio Brito, Dona Nilza faz em casa a comida de sustança antes da brincadeira.

Fraaaaaaaaaaaaaaaa...

 

Foto do Izabel Gurgel

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