
Jáder Santana é jornalista e mestre em Estudos da Tradução pela Universidade Federal do Ceará
Jáder Santana é jornalista e mestre em Estudos da Tradução pela Universidade Federal do Ceará
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Foi divulgado nos últimos dias de 2023, como prenúncio desanimador do novo ano, que haveria redução significativa no orçamento das instituições federais de ensino superior, incluindo nossa Universidade Federal do Ceará (UFC), que deve receber em 2024 cerca de R$ 30 milhões a menos que os R$ 200 milhões necessários para sustentar os gastos estipulados para o ano.
O anúncio do corte, aprovado pelo Congresso Nacional semanas antes, vem gerando reações firmes do setor. O reitor da UFC, professor Custódio Almeida, afirmou em entrevista à rádio O POVO/CBN ser “imperativa a recomposição orçamentária das universidades para 2024” e previu, caso a redução se confirme, “colapso em contratos importantes, como vigilância, limpeza, manutenção predial e de equipamentos.”
Mal recuperados da turbulência corrosiva que por quatro anos se abateu sobre nossas universidades, somos surpreendidos pelos esforços de recrudescimento desse desprezo pela educação. Um desprezo que, por mais que esteja submetido às justificativas estapafúrdias dos nossos representantes, mal consegue disfarçar seu real motivo: a consciência de que a educação é perigosa.
Em texto do início deste século, o intelectual argentino Alberto Manguel escreve: “Um professor sempre estará preso a estas duas exigências: por um lado, ensinar os estudantes a pensar por conta própria; por outro, ensinar de acordo com uma estrutura social que impõe um freio ao pensamento”. A universidade é, historicamente, o espaço onde esses freios mais se afrouxam. Essa é sua ameaça, e é por isso que ela é ameaçada.
Nesse mesmo texto, Manguel resgata a história clássica de Pinóquio (o romance de Carlo Collodi, e não a adaptação da Disney) para refletir sobre a questão. O boneco de madeira trazido à vida se propõe a aprender a ler: primeiro, memoriza os códigos da escrita; depois, assimila a sintaxe que rege esses códigos. Ao fim de sua aventura, o que Pinóquio aprende — para o que o prepara a escola — é a ler propaganda.
Reduzir recursos que seriam destinados à educação, não importa em qual nível do sistema de ensino, é operar dentro da lógica que permitiu ao boneco de madeira “aprender” a ler. É permitir que se ensine, mas que só se ensine o suficiente para a transmissão de mensagens, e não de significados. É permitir que se leia, mas uma leitura que, sob o disfarce da comunicação, mais intimida que revela.
Manguel cita em seu texto o caráter “revelatório” da educação em algumas etnias indígenas, assim como a importância de seus professores, anciãos, xamãs. Opõe esse cenário ao de desprestígio intelectual de outras sociedades, onde “o orçamento destinado à educação é o primeiro a ser cortado” porque “nossos valores nacionais são puramente econômicos”. Por fim, argumenta que o pensamento requer tempo e profundidade. Me atrevo a completar seu manifesto acrescentando que além de tempo e profundidade, a educação requer recursos.
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