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"O Garoto do Colorado": Stephen King e um mistério sem respostas
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Jansen Lucas é coordenador de criação no O POVO, publicitário, designer e artista visual. Dedica-se a escrever sobre cultura com foco em produções de quadrinhos, cinema e literatura, explorando as conexões entre arte, narrativa e mídia em seus trabalhos

Jansen Lucas arte e cultura

"O Garoto do Colorado": Stephen King e um mistério sem respostas

Longe do terror, Stephen King usa um crime sem resposta para refletir sobre a memória e os limites da curiosidade humana em "O Garoto do Colorado"
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Stephen King, consagrado na literatura do terror, brilha em mistério do cotidiano
Foto: Editora Suma/Divulgação Stephen King, consagrado na literatura do terror, brilha em mistério do cotidiano "O Garoto do Colorado", lançado no Brasil pela editora Suma

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Stephen King consolidou-se como um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Obras como "Carrie, a Estranha" (1974), "O Iluminado" (1977) e "It – A Coisa" (1986) redefiniram os limites do terror popular, mas seu legado nunca esteve restrito ao sobrenatural.

Em narrativas como "O Corpo" e "A Redenção de Shawshank", que deram origem, respectivamente, aos filmes "Conta Comigo" e "Um Sonho de Liberdade", King revelou seu grande domínio do drama humano, do cotidiano aparentemente banal e de conflitos que dispensam monstros para causar impacto.

É justamente nesse território que se insere "O Garoto do Colorado", publicado no Brasil pela editora Suma.

Longe de apostar em sustos ou explicações extraordinárias, o romance de 142 páginas parte de um fato simples: o corpo de um homem é encontrado na praia de uma pequena ilha na costa do Maine, em abril de 1980.

O caso, que poderia se resolver como mais uma nota policial, transforma-se em obsessão silenciosa ao ser recontado, décadas depois, por dois jornalistas veteranos, Dave Bowie e Vince Teague, a uma jovem estagiária chamada Stephanie McCann.

O que se desenha não é uma investigação tradicional, mas um exercício de memória, interpretação e, sobretudo, aceitação da dúvida.

King estrutura a narrativa como uma conversa fragmentada, feita de desvios, retomadas e lacunas. Os capítulos curtos, quase anotações orais, reproduzem o ritmo de um diálogo interrompido por cafés, silêncios e digressões.

Capa O Garoto do Colorado(Foto: Editora Suma/Divulgação)
Foto: Editora Suma/Divulgação Capa O Garoto do Colorado

Essa forma aparentemente despretensiosa esconde um rigor narrativo preciso: cada nova informação abre possibilidades que não se fecham, corredores que levam a outros corredores, até que o leitor percebe estar diante de um labirinto sem centro. O autor faz valer, com rara honestidade, a ideia de que a jornada importa mais do que qualquer desfecho.

O maior mérito de "O Garoto do Colorado" talvez esteja na recusa em oferecer respostas confortáveis. As hipóteses se acumulam, contradizem-se e, em vez de esclarecer, ampliam o mistério.

Não se trata de frustração gratuita, mas de uma reflexão clara sobre os limites da investigação - jornalística, narrativa e humana.

Nem todo caso se resolve; nem toda história se organiza em sentido pleno. Nem todo mistério é resolvido "à la Sherlock Holmes". King transforma essa incompletude em tema central, deslocando o foco da solução para o impacto que a ausência dela provoca.

Apesar de ter apenas 142 páginas, o livro constrói personagens densos e verossímeis. Dave, Vince e Stephanie parecem existir para além do papel, como figuras que poderiam ser encontradas em qualquer jornal do interior americano.

Suas relações, motivações e diferenças geracionais enriquecem a narrativa e reforçam a sensação de realidade. O mistério do homem morto importa tanto quanto o modo como essas pessoas lidam com ele e com aquilo que jamais compreenderão por completo.

Ao lado de títulos como "Joyland" e "Depois", ambos também do autor, e publicados originalmente pela coleção "Hard Case Crime", "O Garoto do Colorado" dialoga com o policial clássico apenas para subvertê-lo. Não há catarse, revelação final ou justiça restaurada.

O desconforto que permanece é justamente o ponto. Stephen King demonstra, mais uma vez, que o medo mais persistente não nasce do sobrenatural, mas do que permanece sem explicação, e da nossa dificuldade em conviver com isso.

O Garoto do Colorado

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