João Paulo Biage é jornalista há 13 anos e especialista em Comunicação Pública. De Brasília, acompanha, todos os dias, os passos dos parlamentares no Congresso Nacional e a movimentação no Palácio do Planalto, local de trabalho do presidente. É repórter e comentarista do programa O POVO News e colunista do O POVO Mais
No centro da discussão sobre as fraudes no Banco Master, o ministro teve trajetória conturbada no STF. O ex-advogado do PT tem, atualmente, a inimizade de Lula e a gratidão de Bolsonaro
Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil
MINISTRO
Dias Toffoli
José Antônio Dias Toffoli, ministro do Supremo Tribunal Federal, vive seu momento 'Alexandre de Moraes'. A relatoria do Caso Banco Master o deixa no centro do noticiário: todas as decisões, diálogos e bastidores do processo viram manchetes, algo que Toffoli não estava acostumado, até aqui. Este, porém, não é o primeiro momento conturbado do ministro no STF.
Na verdade, a trajetória de Dias Toffoli é recheada de amores e dissabores. Ex-advogado do PT, Toffoli defendeu o presidente Lula em duas oportunidades no Tribunal Superior Eleitoral: em 2002 e em 2006. As vitórias o credenciaram a assumir a cadeira de ministro da Advocacia-Geral da União (AGU) em 2007, mesmo com o currículo raso. Dois anos depois, o mesmo Lula o indicou ao Supremo Tribunal Federal.
Para conseguir ser aprovado no Senado, Toffoli articulou a defesa do governo Lula à anistia a ditadores, se aproximou de parlamentares da oposição e jantou com Gilmar Mendes, ministro que rejeitava a indicação por causa do currículo do então advogado. Após a benção de Guiomar Feitosa, ex-esposa de Gilmar, os dois ficaram amigos e o decano se tornou uma inspiração para Toffoli.
Rompimento com Lula; aproximação de Bolsonaro
Dias Toffoli se espelhou tanto em Gilmar Mendes que tentou ser o segundo ministro 'centrão' do Supremo Tribunal Federal. Aos poucos, Toffoli foi se afastando da esquerda e do PT, mas houve o momento em que a relação com Lula estremeceu a ponto de não mais retornar.
Em janeiro de 2019, o irmão de Lula, Genival Inácio da Silva, o Vavá, faleceu. O presidente pediu para ir ao velório, mas Dias Toffoli negou. A defesa de Lula até tentou e a autorização saiu, mas não a tempo de Lula chegar para se despedir do irmão. A atitude foi vista pelo presidente como desumana. A partir dali, ele rompeu relações com o indicado.
À época, Dias Toffoli era o presidente do STF, que vivia em rusgas com o então presidente, Jair Bolsonaro. Para tentar apaziguar a relação, como representante máximo do Poder Judiciário, Toffoli marcou reunião com Bolsonaro no Palácio da Alvorada. A conversa foi proveitosa e ambos gostaram do diálogo. A partir daquele momento, Toffoli atuou como conselheiro de Bolsonaro e foi diversas vezes à casa presidencial para acalmar o presidente.
Após o início do Inquérito das Fake News, criado por Toffoli, a relação ficou estremecida, mas não houve rompimento, como ocorreu com Lula. Bolsonaro é grato a Toffoli e o ministro é um dos defensores da prisão domiciliar do ex-presidente.
Toffoli e o Banco Master
Após decisão polêmica do Supremo Tribunal Federal de puxar para si o processo envolvendo as fraudes no Banco Master, Dias Toffoli foi escolhido o relator. Desde então, colocou sigilo no processo, negou compartilhamento de dados com o Congresso Nacional, contrariou Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República e preocupou ministros do próprio STF
A atuação no Caso Master fez o senador Eduardo Girão (Novo-CE) se movimentar durante o recesso do legislativo. Ele coletou 43 assinaturas para o requerimento de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que só não será criada se Davi Alcolumbre não quiser. Girão também protocolou pedido de impeachment do ministro, algo que é tido como muito difícil, mas mais factível do que o afastamento de Alexandre de Moraes.
Esse é Dias Toffoli: passou de indicado a inimigo de Lula; de conselheiro ao quase rompimento com Bolsonaro; e que pode ser o primeiro ministro da história do STF afastado pelo Senado Federal.
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