Jocélio Leal
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Colunista e editor-chefe dos núcleos de Economia e Negócios do O POVO. Também é âncora da rádio O POVO-CBN e apresenta flashes na rádio CBN Cariri. É o editor-geral do Anuário do Ceará e do Guia de Investimentos de São Paulo

Opinião

Coronavírus: pressão de juízes do trabalho pesou no recuo de Bolsonaro

Nota assinada pela Associação dos magistrados definiu a MP assinada pelo presidente como "inoportuna e desastrosa"
Brasília, em 18 de março de 2020, O presidente brasileiro Jair Bolsonaro fala durante uma coletiva de imprensa sobre a pandemia de coronavírus COVID-19 no Palácio do Planalto. (Foto de Sergio LIMA / AFP)
Brasília, em 18 de março de 2020, O presidente brasileiro Jair Bolsonaro fala durante uma coletiva de imprensa sobre a pandemia de coronavírus COVID-19 no Palácio do Planalto. (Foto de Sergio LIMA / AFP)

Brasília - Pesou no recuo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao revogar artigo de MP que permitia suspensão de salários por até quatro meses, a pressão do Judiciário. Ao dar marcha à ré, Bolsonaro mostra estar fragilizado. Ao contrário da euforia do começo do mandato, em uma sugerida autossuficiência do cargo.

A Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), com quase 4 mil magistrados do Trabalho de todo o Brasil, lançou hoje uma nota de repúdio à Medida Provisória nº 927/2020, sobre “medidas trabalhistas” a serem adotadas durante o período da pandemia COVID-19. Definiu como "inoportuna e desastrosa".  

"Na contramão de medidas protetivas do emprego e da renda que vêm sendo adotadas pelos principais países atingidos pela pandemia – alguns deles situados no centro do capitalismo global, como França, Itália, Reino Unido e Estados Unidos-, a MP nº 927, de forma inoportuna e desastrosa, simplesmente destrói o pouco que resta dos alicerces históricos das relações individuais e coletivas de trabalho, impactando direta e profundamente na subsistência dos trabalhadores, das trabalhadoras e de suas famílias, assim como atinge a sobrevivência de micro, pequenas e médias empresas, com gravíssimas repercussões para a economia e impactos no tecido social", diz a nota.

Diz ainda: "Em pleno contexto de tríplice crise - sanitária, econômica e política p , a MP nº 927 lança os trabalhadores e as trabalhadoras à própria sorte. Isso acontece ao privilegiar acordos individuais sobre convenções e acordos coletivos de trabalho, violando, também, a Convenção nº 98 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). A medida, outrossim, torna inócua a própria negociação, ao deixar a critério unilateral do empregador a escolha sobre a prorrogação da vigência da norma coletiva".

Na nota, prossegue: "Afirma-se a possibilidade de se prolongar a suspensão do contrato de trabalho por até quatro meses, sem qualquer garantia de fonte de renda ao trabalhador e à trabalhadora, concedendo-lhes apenas um 'curso de qualificação', que dificilmente poderão prestar em quarentena, e limitando-se a facultar ao empregador o pagamento de uma ajuda de custo aleatória, desvinculada do valor do salário-mínimo. A norma, outrossim, suprime o direito ao efetivo gozo de férias, porque não garante, a tempo e modo, o adimplemento do 1/3 constitucional. Também como se fosse possível institucionalizar uma “carta em branco” nas relações de trabalho, a referida MP obstaculiza a fiscalização do trabalho, conferindo-lhe natureza meramente 'orientadora'”.

Quem assina a nota é Noemia Porto, presidente da Associação. "Ao apenas pedir o sacrifício individual das pessoas que necessitam do trabalho para viver, a MP nº 927 indica que soluções que impliquem em pactos de solidariedade não serão consideradas, tais como a taxação sobre grandes fortunas, que tem previsão constitucional; a intervenção estatal para redução dos juros bancários, inclusive sobre cartão de crédito, que também tem resguardo constitucional; a isenção de impostos sobre folha de salário e sobre a circulação de bens e serviços, de forma extraordinária, para desonerar o empregador", afirma.

A nota, publicada na manhã desta segunda-feira, dizia que a Medida Provisória nº 927 retira dos trabalhadores as condições materiais mínimas para o enfrentamento do vírus e para a manutenção de básicas condições de subsistência e de saúde. "E, na contramão do que seria esperado neste momento, não promove qualquer desoneração da folha ou concessão tributária – com a exata e única exceção do FGTS, parte integrante do salário. Há omissão, que se converte em silêncio injustificável, quanto à proteção aos trabalhadores e às trabalhadoras informais. É notável a desconsideração sobre a justiça e a progressividade tributárias. Ademais, a forte, e necessária participação estatal, assumindo parte dos salários, não aparece como solução".

Ainda a nota: "As inconstitucionalidades da Medida Provisória nº 927 são patentes. A Constituição de 1988 deve ser invocada sobretudo nos momentos de crise, como garantia mínima de que a dignidade dos cidadãos e das cidadãs não será desconsiderada. A Constituição confere à autonomia negocial coletiva, e aos sindicatos, papel importante e indispensável de diálogo social, mesmo, e mais ainda, em momentos extraordinários. Estabelece a irredutibilidade salarial e a garantia do salário-mínimo como direitos humanos. Adota o regime de emprego como sendo o capaz de promover a inclusão social. Insta ao controle de jornada como forma de preservação do meio ambiente laboral, evitando que a exaustão e as possibilidades de auto e de exploração pelo trabalho sejam fatores de adoecimento físico e emocional".

Por fim, declara: "A presente crise não pode, em absoluto, justificar a adoção de medidas frontalmente contrárias às garantias fundamentais e aos direitos dos trabalhadores. Impor a aceitação dessas previsões, sob o argumento de que ficarão todos desempregados, não é condizente com a magnitude que se espera do Estado brasileiro. Os poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário - e a sociedade civil são corresponsáveis pela manutenção da ordem constitucional. Em momentos como o presente é que mais se devem reafirmar as conquistas e salvaguardas sociais e econômicas inscritas, em prol da dignidade da pessoa humana e do trabalhador e da trabalhadora, do desenvolvimento sócio-econômico e da paz social".

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