Juliana Matos Brito
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Juliana Matos Brito é formada em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Trabalha no O POVO há 20 anos. Atuou como repórter e editora do núcleo Cotidiano, que reunia as áreas de Ceará, Fortaleza, Ciência & Saúde e Esportes. Também foi editora de Audiência e Convergência do Grupo de Comunicação O POVO e editora-executiva do Digital e da editoria de Cidades. Tem especialização em Jornalismo Científico e é mestranda em Ciências da Informação, ambos pela UFC.

Análise

Uma pauta delicada

Tratar sobre casos policiais relacionados a crianças e adolescentes deve ser feito de forma cuidadosa e respeitando o Estatuto da Criança e do Adolescente
As crianças foram localizadas na cidade de Senhor do Bonfim, na Bahia. O pai foi preso
As crianças foram localizadas na cidade de Senhor do Bonfim, na Bahia. O pai foi preso

Uma mobilização de uma mãe desesperada chamou a atenção de uma rede ampla de pessoas desde o último domingo. A história começou quando o pai não devolveu as filhas à mãe após o fim de semana. Os pais são separados, a mãe tem medida protetiva contra o ex-marido por violência doméstica, mas a Justiça havia definido que ele poderia ver as crianças no fim de semana. Chegou às minhas redes sociais até uma mensagem de uma rede de acolhimento materno do Rio de Janeiro envolvida na luta para conseguir o retorno das crianças.

O POVO tem um histórico de respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), lei de 1990 que traz artigos que tratam da proteção das pessoas menores de 18 anos. Quando vi o movimento pensei no dilema de como publicar uma matéria sobre um caso como esse sem identificar as crianças e, ao mesmo tempo, identificando o pai para que ele fosse rapidamente encontrado e para que as filhas voltassem com segurança ao lar.

Uma delicadeza. O POVO decidiu identificar a mãe e o pai e não colocar o nome das filhas na primeira matéria que trazia informações sobre o caso. Inclusive com o vídeo que a mãe gravou e postou nas redes sociais. Um pedido de ajuda de uma mãe aflita. Na segunda matéria sobre o caso, o nome da mãe foi preservado e o do pai publicado. Apenas na última matéria, desfecho do caso, quando a Polícia encontrou as crianças e prendeu o homem, O POVO decidiu não identificar nenhum dos envolvidos, como proteção à identidade das crianças.

A editora de Cotidiano, Tânia Alves, explicou sobre a complexidade que foi tratar do caso e como foi preciso uma conversa entre os jornalistas responsáveis pela cobertura para que fosse feito da melhor forma. "Tratar de casos como foi o 'rapto' de duas crianças pelo pai é sempre um dilema. Precisa ser pensado caso a caso", comenta.

Responsabilidade e proteção
a crianças e adolescentes

As decisões sobre uma cobertura como esta devem ser abalizadas a partir do pensamento de se conseguir que o caso seja resolvido da melhor forma possível com o menor prejuízo às crianças. "Inicialmente, decidimos publicar a matéria, inclusive o vídeo da mãe. Porém não mostramos a imagem das crianças. Foi a forma que encontramos para publicar a matéria após conversas entre os editores sobre o assunto. Entendemos que, naquele momento, era muito importante a postagem dos fatos em um intuito de fortalecer a corrente para que as crianças fossem encontradas rapidamente", detalha a editora. Que reforça a força da imprensa. "A imprensa tem um papel importante nesses assuntos por causa da rede de compartilhamentos já existente. A partir do momento em que a história teve um final feliz, não existe mais a necessidade de divulgar os nomes dos personagens e muito menos a imagem deles, embora seja importante publicar a matéria do desfecho para que os leitores tomem conhecimento".

Para explicar mais tecnicamente como devemos ter um cuidado redobrado quando tratamos de crianças e adolescentes, conversei com Marina Araújo, coordenadora do Núcleo de Atendimento do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca Ceará). Ela destaca a importância de ouvir a família sobre o caso. O que foi feito desde o início pelo O POVO. Ela detalha ainda o artigo 13 do ECA que prevê que o poder público poderá promover, mediante convênio com órgãos de comunicação social e outros entes privados, a divulgação de informações e imagens de pessoas desaparecidas. "A divulgação de informações e imagens será feita mediante prévia autorização dos pais ou do responsável. E deve-se prezar pela proteção das crianças. Devemos ter sempre como princípio a proteção de crianças e adolescentes, que eles são sujeitos de direito, tem o direito ao respeito e a intimidade", explica.

Portanto, ter identificado, mesmo sem dar os nomes, a partir da exposição do nome da mãe e do pai das crianças em relação a esse caso, não foi errado, visto que a busca era para que o caso terminasse da melhor forma possível, com a volta delas para casa. Considero que a preocupação da Redação foi importante. E casos desse tipo devem ser publicados desta forma, com responsabilidade.

Paulo Gustavo

A semana também marcou uma tristeza coletiva com a morte do humorista Paulo Gustavo. Desde março, o portal O POVO vinha acompanhando, a partir de boletins médicos, a situação do ator. Em casos delicados como esse. Quando uma figura pública está há muito tempo hospitalizada e há uma gravidade em relação ao estado de saúde, é preciso ter humanidade. Aqui, não importa a agilidade em publicar sobre o caso. É preciso ter certeza e só publicar a matéria sobre a morte quando ela realmente for confirmada. Alguns veículos não fizeram isso. Foi preciso que pessoas próximas ao ator fossem às redes sociais confirmar que ele ainda estava vivo. Fico feliz que O POVO não embarcou nessa e só publicou o anúncio da morte quando o fato estava devidamente confirmado. Respeito deve ser sempre maior que a necessidade de audiência.

 

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