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Doutora em Sociologia com pesquisa em economia criativa, sociologia da arte e da cultura. É membro do corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS), da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

Kadma Marques arte e cultura

O Olhar e o Tempo – Zé Tarcísio, 80 anos

Socióloga da arte, Kadma Marques reflete sobre "efeitos da inteligência visual" na obra do artista cearense Zé Tarcísio, que celebra 80 anos de vida e 60 de arte
Tipo Opinião
O olhar da Yemanjá do artista plástico cearense Zé Tarcísio  (Foto: Divulgação/Zé Tarcísio)
Foto: Divulgação/Zé Tarcísio O olhar da Yemanjá do artista plástico cearense Zé Tarcísio

O olhar da Yemanjá de José Tarcísio é lânguido e profundo. Atrai e fixa diante de si aquele que o confronta. Cativo, o apreciador se rende ao movimento visual que passeia dos olhos à estrela sobre aquela testa feminina, dela à ondulação dos cabelos, para em seguida ceder novamente ao prazer da troca entre olhares. Perturbadora serenidade que interdita despedidas. O apreciador se sente imantado. Afinal, o que desejam esses grandes olhos?

Impossível tarefa esta de domar os múltiplos sentidos desse olhar. Eles se desdobram a cada novo encontro entre a deusa e seus admiradores, a partir dos inumeráveis repertórios inconscientes de vida acionados. Por isso, talvez importe menos cristalizar o significado supostamente unívoco que habitou seu ato de criação plástica do que perceber a ebulição interior que tem ligado apreciadores e obra.

Esse olhar que se expõe como um pretenso convite, na verdade se impõe. Se expressa na figura que ocupa quase todo o espaço da composição plástica. “Veja-me”, ela parece dizer. Ao mesmo tempo, a Yemanjá de José Tarcísio não está lá apenas para ser vista. Ela também se afirma como uma observadora cuja disposição poderia ser assim sintetizada: “Vejo você”...

Esse recurso ao olhar não é matéria recente no campo da arte. Em seu tratado acerca da pintura, por volta de 1430, Leon Batista Alberti já aconselhava explicitamente aos pintores renascentistas tornar seus quadros mais “vivos” e convincentes, incluindo neles pelo menos uma figura que parecesse dirigir-se ao apreciador, atraindo desse modo atenção para a cena.

As figuras femininas pintadas por José Tarcísio – a Yemanjá, mas também a mulher que exibe uma exuberante Safra de Cajus e tantas outras – não dialogam de forma deliberada e imediata com a tradição fomentada por Alberti. Porém, elas incitam aproximações com um longo tempo histórico composto por formas plásticas que celebram o indivíduo. Este se distinguiu pela valorização do rosto, e particularmente de seus olhos, por meio de retratos concebidos como reveladores da singularidade humana e dos segredos da alma.

Embora neste caso não se tratem de retratos, o olhar é elemento marcante nas figuras inventadas pelo artista. Para o público, os efeitos da inteligência visual contida nesse tipo de composição incidem sobre o hábito da atenção concentrada e a sensação de desaceleração do tempo rotineiro. Assim, seus arranjos formais também alimentam essa temporalidade especial da fruição pausada e silenciosa, tecida por articulações práticas entre o “ser visto” e o “ver”.

Ao longo de “80 anos de vida e 60 anos de arte”, a obra de José Tarcísio abrigou olhares variados, cujos traços aproximam-nos do universo popular da xilogravura. Muitos deles encantam pela entrega ostensiva ou pela devoção religiosa. Alguns revelam temor ou exigem reparação, partilhando sentimentos que entrelaçaram o artista ao tempo histórico vivido, seja em períodos de limitações à expressão política, ou na adesão à perspectiva de comunidades tradicionais que buscam preservar bens naturais.

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Por fim, o tempo imprimiu marcas que redefiniram a própria perspectiva temática do olhar incorporada por esse artista carinhosamente chamado de Zé Tarcísio. No momento, são os processos associados ao ver que evidenciam o quanto seu olhar permanece surpreendentemente curioso e intenso, criando artimanhas para intervir no mundo e lidar com a passagem do tempo. Suas séries Kaosmos e Voos Noturnos atestam uma maturidade artística que permitiu, ao invés de abordar o olhar como tema ou como recurso, propiciar ao apreciador a experiência de ver como o artista vê. Assim, configuram-se imagens de um olhar que imagina, sonha, acredita, viaja e se projeta.

Ao público, Zé Tarcísio oferta tais imagens, a fim de que outros também percebam a visão do mundo como uma potência. Nesta faina, gravura, pintura sobre papel e formas de ex-votos somaram-se ao trabalho com objetos ordinários como a pedra, o prego, a pá, a machadinha, convertendo o ver em ato criador.

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