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Doutora em Sociologia com pesquisa em economia criativa, sociologia da arte e da cultura. É membro do corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS), da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

Kadma Marques arte e cultura

Gerson Ipirajá traço ancestral na pele da gravura

Socióloga da arte, pesquisadora Kadma Marques mergulha na obra de Gerson Ipirajá, que mescla desenho, pintura, objetos e instalações
Tipo Opinião
Obra
Foto: Acervo pessoal Obra "Elementos Signográficos" (2017), de Gerson Ipirajá

Gravar o traço, abrindo cicatrizes em forma de matriz. Comprimir, imprimir, transferindo a imagem da superfície-matriz para muitas outras. Reproduzir, reproduzir... Da feitura destes múltiplos, nasceu um ofício. Nele, mesmo uma viagem em sobrevoo revela a presença da gravura em tempos históricos diversos e lugares distantes, do Oriente ao Ocidente. Originalmente a indústria gráfica cumpria finalidades socialmente identificáveis: servia à comunicação discursiva; à produção de imagens de rótulos, cartazes e mapas. Seus recursos expandiram-se, até adentrarem no território da elaboração de sentidos nas artes plásticas.

No Ceará, 27 anos de trajetória colocam Gerson Ipirajá como artista reconhecido na gravura. Ele não somente tem explorado diversas possibilidades técnicas e materiais na elaboração de uma poética própria, envolvendo desenho, pintura, objetos e instalações, mas também figura como agente de momentos de inflexão que marcaram o domínio específico da gravura na arte cearense.

No campo artístico, especialmente marcado pela dimensão sensível e material, a gravura desdobra-se pela variação de sua base material e sociotécnica em xilogravura, gravura em metal e litografia, dentre outras. Os contornos práticos dessa atividade criadora exigem uma história da arte pensada a partir da transformação dos meios que permitem a expressão de concepções estéticas, e não o contrário.

O conhecimento dessa variabilidade, seja da exata medida das incisões feitas sobre madeira na xilogravura, seja acerca do trabalho do desenho com ácidos sobre placa metálica na gravura em metal, sedimentou o caminho que conduziu Gerson Ipirajá ao encontro com a litografia, cujo processo de criação requer a realização do desenho com lápis oleoso sobre uma matriz em pedra. O aprendizado dessa técnica percorreu linhas que aproximaram os saberes do Ceará e de Pernambuco, quando o artista deixou o Estado para formar-se sob a orientação do mestre Hélio Soares (1943-2020), ícone da litografia pernambucana. A partir da Oficina Guaianases, a afirmação desse circuito agregou não apenas um valioso aprendizado técnico à prática do artista cearense, mas levou à incorporação de valores do ofício tal como foi vivido por mestre Soares. Este se constituiu em exemplo de ensino colaborativo, permeado pelo universo popular, que inspirou as inúmeras oficinas de litografia ministradas por Gerson Ipirajá, a partir de 2017, na Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho.

A prática do ofício pela convergência entre docência e pesquisa formal fez com que o artista visse emergir, como um movimento espontâneo, um acervo de figuras que se ligam em sua obra à semelhança de uma escrita imaginária que ambiciona mais fazer sentir do que comunicar. Seu repertório tem como lastro profundo a ancestralidade que emerge intuitivamente da disposição à introspecção como recurso criativo. Essa "escrita" tornou-se presença, pois convive com o artista, sussurra, sugerindo silenciosamente formas complementares e comandando suavemente composições que o crayon litográfico já não hesita em traçar sobre a pedra calcária. Nesse processo em que Gerson Ipirajá recua, concedendo precedência ao jogo estabelecido entre a frieza da pedra, os gestos cultivados pelo domínio técnico e as figuras impostas pelo fluxo caudaloso de uma memória tradicional, coletiva, o artista serve à ancestralidade do traço sobre superfícies, criando imagens na pele da gravura.

Embora singulares cada momento de criação vivenciado por ele tem como fundamento a ação articulada de um conjunto de agentes e instituições que operam as permanências e mudanças do campo da gravura artística no Ceará. Nessa perspectiva, é preciso citar particularmente o papel de Eduardo Eloy, na incorporação do acervo de pedras calcárias do gravurista e litógrafo carioca Antônio Grosso àquele da oficina da Escola de Artes e Ofícios, constituindo um polo de formação em gravura no Ceará. Por seu turno, Sebastião de Paula foi o responsável pela mediação do convite da curadora Irene Weis, o qual levará os artistas Gerson Ipirajá e Silvano Tomaz a integrarem a representação Latino Americana na 11ª edição da Triennale d'estampe de Chamalières, na França.

Por fim, a participação de Silvano Tomaz nesse evento, por meio de uma série de xilogravuras intituladas Empoderamento Feminino, aponta a diversidade e a força de trabalhos autorais que se encontra ao abrigo do citado equipamento cultural. De fato, o percurso de ambos os artistas que acumulam vivências conjuntas na docência, na pesquisa e na participação em um farto leque de eventos nacionais e internacionais, tece uma representação do Ceará que requer maior visibilidade.

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