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Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Apaixonada por basquete, foi repórter do NBB em Fortaleza. Primeira mulher a comentar uma partida de futebol na TV cearense. Autora do livro A Verdadeira Regra do Impedimento, sobre a história do futebol feminino estadual

Basquete em cadeira de rodas: um dos pioneiros das Paralimpíadas

Colunista remonta a história do basquete em cadeiras de rodas, um dos mais tradicionais esportes paralímpicos, que estreou ainda nos Jogos de 1960, já com participação do Brasil
Os Estados Unidos eliminaram a Espanha nas quartas de final do basquete de cadeiras de rodas na Paralimpíada de Tóquio-2020 (Foto: Yasuyoshi CHIBA / AFP)
Foto: Yasuyoshi CHIBA / AFP Os Estados Unidos eliminaram a Espanha nas quartas de final do basquete de cadeiras de rodas na Paralimpíada de Tóquio-2020

Uma das modalidades que podem ser acompanhadas na atual edição dos Jogos Paralímpicos, em Tóquio, é o basquete em cadeira de rodas. As regras, inclusive, têm muitas semelhanças com as do basquete Fiba. As dimensões da quadra, a altura do aro, a minutagem e a distância da linha de três pontos, por exemplo, permanecem as mesmas. Uma das diferenciações é o sistema de classificação dos atletas. De acordo com as habilidades físicas e motoras, os jogadores são avaliados com uma classe que vai de 1 a 4,5 (quanto maior o comprometimento, menor o número), e a soma das classes dos cinco atletas juntos na quadra não pode ultrapassar 14. A medida foi estabelecida para incentivar o equilíbrio dos times e a participação simultânea de diferentes níveis de capacidade motora. As cadeiras utilizadas também devem seguir um mesmo padrão.

O surgimento e a inclusão do basquete em cadeira de rodas como uma modalidade paralímpica teve dois “pais” — e a história é bem contada, com detalhes, no episódio 15 do podcast Na Era do Garrafão.

Ludwig Guttmann era um médico judeu em plena Alemanha nazista. Neurologista de destaque, em 1939 é chamado pelo governo alemão para atender um amigo de Salazar, ditador português, e, em troca, ganharia passaporte para que pudesse deixar a Alemanha. Após o atendimento, pediu asilo na Inglaterra. Guttmann passou a trabalhar diretamente com refugiados e veteranos de guerra, em um centro especializado para tratamentos de lesões na coluna, e já queria incluir o esporte como uma forma de readaptação. 

Em paralelo, nos Estados Unidos, Timothy Nugent e o irmão, cadeirante por consequência da Segunda Guerra, faziam alguns arremessos na quadra do hospital onde esse mesmo irmão estava internado. Essa forma de distração chegou a hospitais de várias cidades e alguns times de veteranos da guerra começaram a ser montados. Nugent é um dos grandes nomes na luta pelos direitos das pessoas com deficiência e contribuiu, inclusive, para a inserção dessas pessoas no ambiente educacional. Com os times que se formaram nos hospitais, Nugent organizou uma liga esportiva, em 1948 — a National Wheelchair Basketball Association, que surge quase na mesma época da NBA pós-junção entre NBL e BAA.

A NWBA, que hoje conta com mais de 200 times filiados, surge apenas com times de ex-militares, mas também passa a incorporar civis. Uma das equipes com destaque foi o Pan Am Jets, que virou um “Harlem Globetrotters” do basquete em cadeira de rodas. Fazendo excursões no mundo, os Pan Am Jets ajudaram a difundir a modalidade (inclusive no Brasil). Na Europa, essa divulgação encontrou espaço justamente nas ideias do médico Ludwig Guttmann, que buscava organizar um campeonato com modalidades para pessoas com deficiências.

Os Stoke Mandeville Games, que levavam o nome do hospital onde Guttmann atuava, aconteceram pela primeira vez em 1948, de forma simultânea à Olimpíada de Londres. Em 1956, o Comitê Olímpico Internacional (COI) premiou Guttmann pela iniciativa e, em 1960, mais de 400 atletas de 23 países disputaram a competição, que passou a ser organizada oficialmente pelo COI. O basquete em cadeira de rodas participou dessa “primeira” edição, em 1960, e permanece até hoje no quadro de modalidades dos Jogos Paralímpicos. Apesar de o Brasil não ter medalhas, essa foi a primeira modalidade paralímpica praticada e estruturada no Brasil, em 1958.

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