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A higidez dos cursos de medicina do Cariri
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Âncora e coordenador de Jornalismo da rádio O POVO CBN Cariri Já foi repórter da rádio O POVO CBN Cariri, em Juazeiro do Norte, e da rádio O POVO CBN, em Fortaleza. Atuou também no jornal O POVO, nas editorias de Cidades e Política. Atualmente, também é colaborador da editoria de Veículos do portal O POVO. Formado na Universidade Federal do Cariri (UFCA)

A higidez dos cursos de medicina do Cariri

Mesmo diante da gravidade do caso, o MEC decidiu que nenhuma instituição terá atividade suspensa. O remédio aplicado foi redução de vagas e proibição para abertura de novas turmas. Nada amargo perto do dano potencial
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Cursos de medicina com nota baixa no Enamed poderão ser impedidos de abrir novas vagas (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil Cursos de medicina com nota baixa no Enamed poderão ser impedidos de abrir novas vagas

Três em cada dez cursos de medicina no Brasil estão doentes. O diagnóstico veio do Ministério da Educação (MEC), no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), aplicado em 2025 e cujos resultados foram divulgados em janeiro deste ano. Um sintoma ruim para a Saúde — pública e privada— e um alerta preocupante às autoridades reguladoras, conselhos de classe e sociedade civil.

O laudo do MEC confirma, objetivamente, um problema crônico: faculdades de medicina lucrativas para os donos (no caso das particulares), mas com estrutura e ensino insuficientes para formar profissionais de excelência. Das 305 instituições analisadas, 107 obtiveram notas entre 1 e 2, o índice de reprovação. A escala, que vai até 5, tem grau satisfatório a partir de 3.

Os números atestam, na prática, que mais de 13 mil graduandos serão diplomados médicos sem competências mínimas para exercer a profissão. Um risco a milhões de brasileiros. Mesmo diante da gravidade do caso, o MEC prescreveu tratamento placebo. Nenhuma das instituições terá atividades suspensas. O remédio aplicado foi redução de vagas e proibição para abertura de novas turmas. Nada amargo perto do dano potencial.

No Cariri, dois cursos foram avaliados no Enamed e ambos alcançaram desempenho considerado satisfatório. A Universidade Federal do Cariri (UFCA) obteve nota 4 e a Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte/Estácio-Idomed (FMJ) ficou com 3. Os resultados indicam higidez da formação médica na região, ainda que o caminho até a qualidade máxima não tenha sido completado.

Outros dois cursos de medicina do Cariri não participaram do teste porque foram implantados há pouco tempo e ainda não formaram profissionais: Universidade Regional do Cariri (2022) e Centro Universitário Doutor Leão Sampaio (2025). O Enamed serve de sobreaviso às duas instituições, que terão de provar à sociedade um grau de qualidade igual ou superior ao dos cursos veteranos na região.

Se bem que, pela régua do tempo, a formação médica no Cariri ainda está em fase de desenvolvimento. Os primeiros cursos têm menos de 30 anos de existência, enquanto o mais antigo do Ceará, da Universidade Federal do Ceará (UFC), em Fortaleza, completa 78 anos em março próximo — e celebra nota máxima no Enamed.

Na esteira dessa preocupação, a Urca mira no currículo dos médicos. A Universidade aceita em seu quadro de docentes somente professores com residência, conforme noticiou Jocélio Leal em sua coluna no O POVO. Não abrir mão desse requisito impõe um filtro ao mercado que pode até gerar dificuldades de contratação –os melhores profissionais podem não estar dispostos a dar aulas–, mas elimina deficiências de ensino hoje existentes nas faculdades reprovadas pelo MEC. A medicina ensina a todos que prevenir é melhor do que remediar. Falta que o conceito seja universalizado na própria formação médica.

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