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Fortaleza, quase 300 anos
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Magela Lima é jornalista e professor do Centro Universitário 7 de Setembro (Uni7), doutor em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Magela Lima opinião

Fortaleza, quase 300 anos

.Gostamos mais de futuro que de passado. Aqui, o cheiro de novo parece ser mais volátil. Temos uma espécie de fascínio por tudo o que se apresenta como novidade
Tipo Opinião
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Cineteatro São Luiz
 (Foto: Luiz Alves/ Divulgação)
Foto: Luiz Alves/ Divulgação Cineteatro São Luiz

E lá se vão quase 300 anos desde que o Governo português reconheceu como vila o pequeno, minúsculo, povoado que daria origem ao que hoje se entende como Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, a capital do Ceará e de todos os cearenses. Marco burocrático e absolutamente questionável como gênese oficial da cidade, a data, ainda assim, ajuda a explicitar nossa resiliente juventude. Fortaleza é, na prática, muito mais recente do que registram os documentos. Nós chegamos aos três séculos ostentando pouquíssimos traços centenários. Do que se teria vivido no já distante século XVIII, quase nada restou para além do que a natureza nos presenteou. De todo modo, comemorar é preciso e urgente.

Vila por quase um século e elevada à cidade sem o "progresso" necessário, a verdade é que Fortaleza tem lidado com o tempo de forma enviesada. Gostamos mais de futuro que de passado. Aqui, o cheiro de novo parece ser mais volátil. Temos uma espécie de fascínio por tudo o que se apresenta como novidade. Assim, temos construído nossa vida e espaço público.

É a nova Beira Mar. É o novo IJF. É o Cuca do José Walter soterrando o antigo CSU. É o Centro Dragão do Mar em pleno retrofit sem contar ao menos três décadas. É a Alberto Craveiro com as árvores do canteiro central arrancadas, antes mesmo de vingar, para dar passagem ao VLT. Enfim.

Não que a cidade precise ser experimentada de modo engessado, mas é particularmente importante e desafiador olhar o tempo em Fortaleza ou de Fortaleza com uma outra frequência. Não precisa ser sempre a ruína arriscada da Ponte Velha ou a saudade do São Pedro, momentaneamente feito praça. Também não precisa ser um arremedo de passado como o "novo" Café Java.

É possível, sim, preservar e atualizar de uma vez só. O Cineteatro São Luiz, por exemplo, recuperou sua história para ser, hoje, o que, talvez, nunca tenha sido. Com alguns ajustes, é possível e viável fazer caber a Fortaleza de agora e a de amanhã na Fortaleza de ontem.

Penso que esses 300 anos que se anunciam para abril sejam uma oportunidade de, coletivamente, Fortaleza fazer as pazes do que passou com o que virá. Mesmo que em condições excepcionais, a cidade pode se permitir um acarinhar diferente. Fazer como minha amiga Zena, que sempre comemora o aniversário de seu tradicional restaurante, que, ontem, diga-se, chegou aos 56 anos.

A data redonda, entretanto, permite uma festa maior, mais robusta, em que Fortaleza possa se querer e se orgulhar um tantinho mais. Apesar da certeza de que os problemas e desafios são muitos, chegamos até aqui e queremos seguir. A vida presta em Fortaleza e pode prestar mais, muito mais, se cada um e todos nós decidirmos cuidar mais e melhor desse pedaço de chão.

 

Foto do Magela Lima

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