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Coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, cientista político, mestre em Ação Política pela Universidade Rey Juan Carlos (2007), diretor-executivo do Interlegis do Senado Federal. Analisa o cenário político nacional, a partir de um merguilh0op mais profundo nas causas e efeitos.

Campanha permanente

Tipo Análise
SAO PAULO, BRASIL, 12-06.2021: Motociata Acelera pra Jesus em Sao Paulo. (Foto: Alan Santos/PR/Palacio do Planalto) (Foto: Alan Santos/PR)
Foto: Alan Santos/PR SAO PAULO, BRASIL, 12-06.2021: Motociata Acelera pra Jesus em Sao Paulo. (Foto: Alan Santos/PR/Palacio do Planalto)

A chegada da chamada "nova política" ao cenário nacional veio embalada por práticas que aos poucos começam a fazer parte do nosso cotidiano.

A principal delas é a sensação de campanha constante, algo derivado do estilo mercurial de Bolsonaro e que faz parte do seu jeito de fazer política.

As "motociatas" se transformaram na manifestação mais recente de seu método, um estilo que deve acentuar-se até as eleições.

O modelo não é novo e encontra diálogo com governos de traços populistas, que possui como característica fundamental uma linha direta entre governante e a população, sem intermediários.

No Brasil vimos este caminho ser trilhando por diversos governantes, seja pela direita ou pela esquerda e mais uma vez encontra acolhida nos métodos de um ocupante da cadeira presidencial.

Apesar de fortalecer o governante em sua tarefa de falar diretamente ao povo, afasta-o dos caminhos institucionais, que é dialogar com os outros poderes da República na busca de consensos, função primordial da política.

Ao buscar conexão direta com o povo, busca transformar a população em instrumento de pressão para atravessar o jogo político de forma indevida e assim evitar o diálogo parlamentar, que se torna inócuo.

O estilo de campanha permanente faz parte deste enredo, assim como o modelo reativo e beligerante, pois ao colecionar inimigos induz o povo a vitimizar o líder.

É método que nem sempre funciona, mas costuma gerar resultados em ambientes de polarização e paixões exacerbadas como este que estamos vivendo. O populismo não se move pela razão, mas pela emoção.

O vácuo deixado por este tipo de política está justamente na efetividade das ações do governo. Quando na sustentação do tripé populista falta coordenação institucional, a política sofre abalos.

Ao deixar este flanco aberto, surgem gargalos que podem levar o governo a um enorme desgaste, como vemos, por exemplo, na gestão da pandemia e nas coordenações de reformas no Congresso Nacional.

O populismo no geral produz vácuos desta natureza. O líder busca conexão direta com o povo, enquanto a política fica em segundo plano.

Daí surgem os riscos de rupturas institucionais que causam arrepios na democracia. Seja pelo caminho da esquerda ou da direita, governos autocráticos, autoritários ou mesmo totalitários podem se viabilizar.

Fato é que o populismo é sempre um atalho para concentração de poder.

O Brasil precisa estar atento a estes movimentos em ambos lados do espectro político. Nada de bom advém de governos que usam o clientelismo, paternalismo e assistencialismo para se promover.

Ao escravizar o povo por meio de seus métodos ou fascínios, estes líderes estão também trabalhando contra a democracia e a liberdade.

A campanha permanente é uma forma populista de se manter em evidência e torna-se ainda mais alarmante quando o país precisa de líderes que visitem hospitais ao invés de criar aglomerações em passeios dominicais durante uma pandemia.

O caminho da reeleição de um bom governante observa o princípio da prudência, que se opõe ao show populista daqueles que somente fingem governar. n

 

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