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Coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, cientista político, mestre em Ação Política pela Universidade Rey Juan Carlos (2007), diretor-executivo do Interlegis do Senado Federal. Analisa o cenário político nacional, a partir de um merguilh0op mais profundo nas causas e efeitos.

Bolsonaro é a crise

Tipo Opinião

O Brasil vive uma sucessão de crises. As frentes são as mais diversas possíveis, assim como seus desdobramentos. No centro de todas está o comportamento beligerante e mercurial de Bolsonaro, que importou para o Planalto o mesmo procedimento de seus anos como parlamentar.

O embate fomenta sua agenda e conduz sua presidência, o que gera instabilidade e incerteza, muito longe daquilo que o país precisa para vencer seus desafios.

Sabemos que a crise sanitária poderia ter um impacto muito menor do que vemos hoje. A nação assistiu atônita a escalada de mortes por meses a fio, encontrando apenas sinalização de melhora com a chegada das vacinas.

A negação da pandemia, seguida diretamente pela estratégia de tratamento precoce ineficaz e a tardia compra de imunizantes jogou o Brasil em uma espiral de mortes e hospitalizações que não encontra paralelo em nossa história.

A crise sanitária teve impacto na crise econômica, mas seria bem menor se o governo tivesse tratado da pandemia com a devida atenção. Além disso, a ausência de reformas tornou o Brasil pouco atrativo para investimentos.

As privatizações não ocorreram, quebrando uma promessa de campanha, e o desajuste fiscal extrapolou todos os limites imaginados. O resultado é desemprego, inflação e desinvestimento.

Ao criar um clima beligerante com os governadores, Bolsonaro inaugurou a crise federativa. Foram poucos aqueles que conseguiram fugir da fúria do Presidente, seja em ataques diretos, via redes sociais ou represálias econômicas.

A relação pessoal se sobrepôs ao comportamento institucional que deve nortear a relação entre governantes. O resultado é um desalinhamento entre Palácio do Planalto e governadores que gera desdobramentos dramáticos para a população, especialmente em tempos de pandemia.

A conflagração subiu mais um degrau quando chegou até a relação entre os poderes, tragando para uma guerra desnecessária os ministros da corte constitucional brasileira, parlamentares e a Presidência da República.

O clima entre o Planalto e os Ministros do Supremo Tribunal Federal alcançou o patamar do inimaginável com o pedido de impeachment de um membro da corte pelo Presidente da República, depois de ofensas e ameaças que tensionaram a relação.

O diálogo com o jornalismo nunca foi amistoso, mas Bolsonaro desconhece limites ao tratar com um dos pilares da liberdade e da democracia. Ao denegrir, atacar e agredir com insultos um amplo leque de jornalistas, especialmente aqueles imbuídos de fazer as perguntas que incomodam o Presidente, Bolsonaro criou uma crise com a imprensa.

Ao colher desacertos em tantas frentes, percebe-se que a instabilidade não está em cada um destes lugares, mas naquele que busca a tensão e enfrentamento constantes, um movimento responsável por instaurar um clima terrível que acaba por enfraquecer a democracia brasileira.

Antes de termos uma crise sanitária, econômica, federativa, institucional e com a imprensa, temos uma crise de Bolsonaro com o país. Ao transbordar seu comportamento intolerante, beligerante e mercurial, ele traga o Brasil para o centro de sua fantasia, deixando um rastro de instabilidade e incerteza. n

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