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Cerco contra a Democracia
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CEO do Instituto Monitor da Democracia e membro do Conselho Superior da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos, Espanha

Cerco contra a Democracia

Se Taiwan cair, a integridade territorial do Japão e Coreia do Sul estará fatalmente comprometida. Além disso, há um imperativo moral: o destino de Hong Kong serve como um alerta irrefutável sobre a erosão sistemática das liberdades
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TURISTAS observam helicóptero militar chinês sobrevoando a ilha de Pingtan, um dos pontos mais próximos da China continental de Taiwan (Foto: Héctor RETAMAL / AFP)
Foto: Héctor RETAMAL / AFP TURISTAS observam helicóptero militar chinês sobrevoando a ilha de Pingtan, um dos pontos mais próximos da China continental de Taiwan

À medida transitamos para 2026, o tabuleiro geopolítico global enfrenta sua conjuntura mais crítica desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A deflagração da "Missão Justiça 2025" por Pequim não representa apenas mais um capítulo de tensões no Estreito de Taiwan, pois sinaliza uma mudança de paradigma na postura estratégica da China.

Como analista de risco internacional, posso afirmar que não estamos diante de um simples exercício militar. Estamos testemunhando o ensaio final de uma operação de estrangulamento sistêmico, desenhada para testar a resiliência das democracias e a viabilidade da ordem internacional.
A sofisticação do cerco simulado, focando na interdição total dos portos de Keelung e Kaohsiung e bloqueio de cabos submarinos, busca reduzir o tempo de aviso estratégico das potências aliadas.

Este cenário torna-se ainda mais sombrio com o apoio de Moscou. Para o Kremlin, a instabilidade no Indo-Pacífico drena recursos do Ocidente, aliviando a pressão na Europa. Ao endossar Pequim, a Rússia consolida um eixo autocrático revisional que busca substituir o direito internacional pela lei das esferas de influência, onde o destino de nações livres é decidido pela força.

A implicação imediata é o risco de um conflito armado que seria devastador. Taiwan é o epicentro de um "Escudo de Silício": a ilha produz mais de 90% dos semicondutores de última geração. Estimativas projetam uma perda imediata de US$ 10 trilhões no PIB global.

Para o Brasil, as consequências seriam existenciais: a interrupção das rotas no Mar da China Meridional paralisaria o agronegócio e a mineração nacional. A segurança econômica brasileira está, portanto, intrinsecamente ligada à autonomia de Taipei.

Taipei, junto com Tóquio e Seoul, forma a espinha dorsal que segura o avanço do autoritarismo na Ásia.

Se Taiwan cair, a integridade territorial do Japão e Coreia do Sul estará fatalmente comprometida. Além disso, há um imperativo moral: o destino de Hong Kong serve como um alerta irrefutável sobre a erosão sistemática das liberdades. Proteger Taiwan é garantir que o exemplo de sua democracia vibrante continue a iluminar uma região cercada por sombras autocráticas.

As nações democráticas devem abandonar a complacência e adotar uma postura de dissuasão clara. A diplomacia deve ser elegante, mas inabalável: a sobrevivência de Taiwan é inegociável. Proteger a ilha não é apenas um ato de solidariedade, mas de preservação da nossa infraestrutura econômica e dos valores que definem a civilização moderna. A estabilidade global depende, hoje, da coragem de defender a autodeterminação dos povos livres frente à opressão expansionista das autocracias.

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