CEO do Instituto Monitor da Democracia e membro do Conselho Superior da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos, Espanha
.O Irã está no centro de uma tempestade histórica e o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar
Foto: HENRY NICHOLLS / AFP
ATOS têm sido realizados em capitais. Na foto, uma mulher protesta contra o governo iraniano em frente à Embaixada do Irã em Londres
O Irã vive um momento de ruptura definitiva. As ruas da capital e das principais províncias não clamam mais por reformas graduais, mas pelo fim de um sistema que se tornou anacrônico. O regime, que por décadas utilizou o fervor religioso e o nacionalismo para se sustentar, enfrenta hoje uma combinação letal: o colapso econômico e uma sucessão de derrotas humilhantes no cenário internacional. O que vemos é o esgotamento de um modelo que nasceu em 1979 e que parece não ter mais solução.
Compreender a crise contemporânea exige revisitar o colapso de Mohammad Reza Pahlavi. Ao tentar converter o país em uma potência ocidentalizada, o Xá negligenciou as bases tradicionais, enquanto a repressão da SAVAK alienava a elite. Esse cenário culminou na Revolução de 1979, uma coalizão pluralista que, sob Ruhollah Khomeini, instituiu a Velayat-e Faqih. Esta doutrina submeteu a nação à tutela do jurista islâmico, centralizando a autoridade política e espiritual em um clérigo supremo e consolidando a teocracia moderna. Quase meio século depois, o contrato social da República Islâmica ruiu. O sistema que prometia justiça entregou uma economia de espoliação controlada pela Guarda Revolucionária.
A crise atual é o ápice de uma má gestão econômica agravada pelo impacto da "Guerra dos 12 Dias" em junho de 2025, que degradou a infraestrutura militar do país. Diferente do movimento de 2022, as manifestações atuais têm caráter existencial. O coração do levante bate no Bazar, o termômetro da estabilidade persa. Quando mercadores se unem a jovens e minorias étnicas, o regime perde sua última âncora de legitimidade.
A análise de risco nos obriga a desenhar caminhos para o desenlace. Um cenário provável é a solução pretoriana, onde a Guarda Revolucionária desferiria um golpe interno, afastando os aiatolás em troca de uma abertura econômica nacionalista e pragmática, aos moldes do Egito. Outro caminho seria a restauração de uma democracia parlamentarista laica, tendo Reza Pahlavi como símbolo de unidade transicional, lembrando a transição espanhola pós-Franco. Contudo, há o risco de recrudescimento, onde o regime se isola como uma "Coreia do Norte do Oriente Médio" através do terror, ou ainda o abismo da fragmentação étnica e "balcanização", mergulhando o país em guerra civil e desestabilizando o suprimento global de energia.
O Irã está no centro de uma tempestade histórica e o experimento teocrático chega ao seu epílogo. A questão não é mais se o regime mudará, mas quem estará no controle quando a poeira baixar. A Pérsia está prestes a escrever um novo capítulo e o mundo deve estar preparado para o que emergirá das cinzas da teocracia.
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