Marília Lovatel cursou Letras na Universidade Estadual do Ceará e é mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. É escritora, redatora publicitária e professora. É cronista em O Povo Mais (OP+), mantendo uma coluna publicada aos domingos. Membro da Academia Fortalezense de Letras, integrou duas vezes o Catálogo de Bolonha e o PNLD Literário. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2017 e do Prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil – AEILIJ 2024. Venceu a 20ª Edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil - 2024.
Aprendo com a lembrança do meu pai e com o movimento de minha filha. Os dois me ensinam a sorver a felicidade que vem de fora e nos transforma por dentro. Como o sol que ilumina a nossa terra e entra pelos poros. Como essa chuva que lava a vegetação, o chão, o ar, as fantasias...
Foto: FCO FONTENELE
Chuva não dispersa alegria, mas pode inibir paredões
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É sábado de Carnaval no Brasil. Brilha a luz intensa, encandeante do Ceará. Chove muito, muitíssimo, mais do que o esperado para o período. E, por uma bênção divina, chove em fevereiro, bem antes do Dia de São José, 19 de março, em prenúncio de bom inverno. A água não dispersa a multidão nas ruas lotadas, mas inibe os ensurdecedores paredões de som — agradeço a Deus.
Estar na praia nesta semana impõe uma série de desafios, enfrentar o trânsito congestionado nos grandes e pequenos trajetos, exercitar a paciência a cada breve deslocamento, ter de fugir dos restaurantes e mercadinhos invariavelmente lotados, compartilhar o barulho que chega de todas as direções. É hora também de vestir roupa leve, descalçar os sapatos, usar mais cores, experimentar um adereço extravagante, no intuito de sinalizar que, a meu modo, tomo parte na celebração.
Do alpendre, observo a cortina líquida descendo contínua, e isso basta para a minha distração. A alegria ao meu redor dá sentido à decisão de termos vindo ao encontro do calor, onde a festa se concentra. Meu pai me sorri da foto, ergue um coco recém-tirado do coqueiro. Parece exclamar, de um jeito enérgico e brincalhão, “não espere, aproveite tudo já, agora!”. A imagem, capturada há 19 anos exatamente neste jardim, sempre mexe comigo. Se ele estivesse vivo, começaríamos hoje a contagem regressiva até o seu centenário, no próximo 14 de fevereiro, em 2027.
Faço as contas. Marcelinha tinha 2 anos naquela temporada em que estivemos todos juntos aqui, em Aracati, na nossa casa de veraneio em Majorlândia. Avô e neta fazendo aniversários bastante próximos um do outro. Depois de amanhã, ela vai completar 21. E continuo a me surpreender com a velocidade da passagem do tempo. Foi de 2 a 21 em um piscar de olhos. Ela escolheu comemorar assim, trazendo os amigos, enchendo a casa, inserindo a sua festa particular em uma maior, pública, compartilhada pelo país inteiro.
Aprendo com a lembrança do meu pai e com o movimento de minha filha. Os dois me ensinam a sorver a felicidade que vem de fora e nos transforma por dentro. Como o sol que ilumina a nossa terra e entra pelos poros. Como essa chuva que lava a vegetação, o chão, o ar, as fantasias, aumenta a nitidez do que se enxerga de perto e de longe e potencializa a euforia coletiva.
E eu me deixo contagiar, aceito o convite da música que toca no alto-falante: “Não se perca de mim / Não se esqueça de mim / Não desapareça / A chuva tá caindo / E quando a chuva começa / Eu acabo de perder a cabeça / Não saia do meu lado / Segure o meu pierrot molhado / E vamos embolar ladeira abaixo / Acho que a chuva ajuda a gente a se ver / Venha, veja, deixa, beija, seja / O que Deus quiser.”
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