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"A vida não aceita rascunhos"
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Líder classista, empresário do setor de farmácias, é diretor da Confederação Nacional do Comércio (CNC) desde 2018

"A vida não aceita rascunhos"

Cargos passam, representações mudam, mas o que fica é o rastro humano. Aprendi que ninguém segue alguém que não está inteiro. Que não há autoridade verdadeira sem coerência interior
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Mauricio Filizola e família (Foto: ARQUIVO PESSOAL)
Foto: ARQUIVO PESSOAL Mauricio Filizola e família

Por muito tempo, acreditei que viver era uma equação a ser resolvida. Estudei, trabalhei, assumi responsabilidades cedo. Construí empresas, liderei pessoas, representei instituições. Casei, tive filhas, plantei raízes. Tudo parecia seguir uma lógica correta, quase impecável. Mas, em algum ponto da caminhada, percebi que a vida não se deixa organizar como uma planilha. Ela escapa pelas entrelinhas.

O caminho do autoconhecimento entrou na minha história não como moda, mas como necessidade. Foi ali — entre formações, mentores, perguntas difíceis e silêncios honestos — que entendi algo simples e desconcertante: a vida não aceita rascunhos. Não há versão preliminar, não existe “depois eu vivo”. O texto é final desde a primeira linha.

Eu sempre fui movido por fazer. Fazer dar certo. Fazer crescer. Fazer acontecer. E isso tem valor. Mas houve momentos em que percebi que estava vivendo como quem prepara a casa para uma visita que nunca chega. Tudo organizado, tudo em ordem, mas com pouco vento entrando pelas janelas. Foi quando entendi que sucesso sem presença vira apenas barulho.

Minhas filhas me ensinaram isso sem discursos. Elas vivem no agora com uma coragem que os adultos desaprendem. Não negociam afeto, não adiam riso, não economizam abraço. Observá-las foi como reaprender a língua materna da vida. A família virou âncora e espelho: mostrava quem eu era e quem eu estava me tornando.

Na liderança, a lição foi semelhante. Cargos passam, representações mudam, mas o que fica é o rastro humano. Aprendi que ninguém segue alguém que não está inteiro. Que não há autoridade verdadeira sem coerência interior. E que servir ao coletivo exige, antes, estar em paz consigo. Não há representatividade sólida quando a alma vive em débito.

A metáfora que hoje me acompanha é a do viajante que decide, conscientemente, abrir a mala durante o percurso. Ele aceita que as roupas amassem, que a poeira entre, que o caminho deixe marcas. Porque entende que proteger demais é uma forma sutil de não viver. Eu também precisei aceitar isso: que a vida bagunça, desafia, expõe — e ainda assim vale.

Hoje sigo construindo, sim. Continuo aprendendo, liderando, errando, ajustando rotas. Mas com uma diferença essencial: não adio mais quem sou esperando quem posso ser. Entendi que o agora não é ensaio; é palco. Que prudência não pode virar anestesia. E que viver é uma prática diária de presença.

No fim, não quero deixar apenas obras, cargos ou discursos. Quero deixar vida vivida. Porque a vida não aceita rascunhos. E eu escolhi, mesmo imperfeito, escrever a minha em voz alta.

Foto do Maurício Filizola

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